sexta-feira, janeiro 16, 2004



CANTO III


Sentei-me nos degraus da Dogana
Porque as gôngolas custavam muito caro, nesse ano,
E não havia ''aquelas pequenas'' havia uma face,
E o Bucentauro a uma vintena de metros uivando ''Stretti'',
E as vigas-mestras iluminas, esse ano, no Morosini,
E pavões em casa de Koré, ou talvez houvesse.
Deuses flutuavam no ar anil
Luminosos deuses e toscanos, de volta antes de orvalho ser vertido.
Luz: e a primeira luz antes sequer de o orvalho haver caído.
Paniscos, e do carvalho, dríade,
E da maçã, mélida,
Por todo o bosque adentro, e as folhas estão cheias de vozes,
Em sussurro, e as nuvens curvam-se sobre o lago,
E há deuses sobre elas,
E na água banhistas de amendoada brancura,
A água prateada vidra o mamilo voltado para cima,
Como Poggio notou.
Verdes veios na turquesa,
Ou os degraus pardos sobem sob os cedros.


O meu Cid cavalgou para Burgos,
Até à porta pregueada entre duas torres,
Bateu com o canto da lança, e a criança apareceu,
Una niña de nueve años,
Na pequena galeria sobre a porta, entre as torres
a ler o decreto, voce tinnula:
Que ninguém fale, dê pousada, ajude a Ruy Diaz,
Sob pena de ter o coração arrancado, e posto no pico de um pique,
E ambos os olhos vazados, e todos os bens confiscados,
''E aqui. Mio Cid, estão os selos,
o selo real e a firma''.
E ele desceu de Bivar, Mio Cid,
Sem deixar lá falcões nos seus poleiros,
E roupa alguma lá nas prensas,
E deixou a sua arca com Raquel e Vidas,
O grande baú de areia com os agiotas,
Para arranjar a para da mesnada;
E fez-se de caminho para Valência.
Inês de Castro assassinada, e a parede
Aqui despida, aqui feita para ficar.
Triste destroço, o pigmento escama-se da pedra,
Ou argamassa descascada, Mantegna pintou a parede.
Trapos de seda, ''Nec Spe Nec Metu''.


Ezra Pound

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