terça-feira, janeiro 20, 2004
Antes de dormir pego sempre numa lâmpada e deixo-a cair
da janela.
Moro num 2º andar.
As lâmpadas quando caem no chão, partem-se.
É da física.
Não sei explicar exactamente porque procedo a este ritual
todas as noites.
O que sei é que quando não o faço não consigo dormir.
Quando tenho uma insónia já sei a causa:
esqueci-me de atirar uma lâmpada da janela abaixo.
Quando, por vezes, reparo que já não tenho nenhuma lâm-
pada em casa, vejo-me obrigado a vestir e a percorrer, se for
necessário, a cidade inteira, até encontar o que pretendo.
O meu ritual só funciona com lâmpadas novas, por estrear.
Uma ou outra vez, por preguiça, ou por chover demasiado,
tentei utilizar, numa emergência, lâmpadas retiradas de
candeeiros da casa.
Não resultou.
Insónia incontornável.
E nestas situações não há nada a fazer:
ou ganho coragem para sair ou rendo-me toda a noite à
leitura de um livro.
Quando era novo optava muitas vezes por esta segunda
hipótese.
Adquiri toda a minha cultura devido ao facto de não ter
lâmpadas em casa e de estar a chover muito lá fora.
Lâmpadas inexistentes, insónias intermináveis, livros múlti-
plos.
É esta a sequência da aprendizagem cultural de um grande
vulto da presente sociedade e das futuras: eu!
Parece mentira não é? Mas é assim mesmo:
este homem que aqui vêem deve tudo o que sabe à falta
de lâmpadas.
O que o mundo terá a agradecer a esta escassez é o que
veremos no futuro.
Por mim garanto-vos:
estou destinado a grandes coisas.
Gonçalo M. Tavares

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