domingo, junho 01, 2003


Dia Primeiro

Lembras-te quando as romãs
se apertavam contra o peito?
Era maio. Era o sul.
Quem se lembra de nós? Quem nos respira?
Quem abre as cortinas e espreita,
a saber de nós?

Curaste o rio da rebelião. Curaste a seiva.
Vês como cresce em esplendor?
Desde maio que floresce.
Desde maio. Desde maio
que se desfaz em lágrimas.
Como é sentir o cordão a romper-se?
Como é sentir a terra tão longe, que dá vontade de cair
só para experimentar o delírio da queda,
a solidão do ar que se respira desfeito em partículas?

Não sei onde me fixar,
tenho o olhar perdido, o cabelo em desalinho,
as mãos agitadas à procura.
Que dizer agora que a solidão bate à porta?
Que te dizer, amor, senão que a vida se pode emendar,
que a vida se pode redimir
e retomar o sonho?
Que te dizer senão que o meu sangue se despede
e já nada resta a não ser um acordar?
Um acordar onde tu apedrejas aos anjos e me queimas os olhos no fogo.

Desintegra-te,
respira quando doer, dilacera-te.
Dilacera-te, meu amor.
E de repente acontece sentir.
Era maio. As giestas de maio:
que beleza, que sabor tão doce!
Se eu soubesse partilha-lo contigo
o mundo acabava aqui, no primeiro dia.

Ingrid Choren

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