quarta-feira, outubro 19, 2005



Os Epígonos

É inútil invocar Apolo num caso como o deles,
Os deuses amantes do prazer morreram nos seus tronos
E nenhum jamais se levantaria, embora
Tribos guturais tivessem passado o Grande Rio,
Queimando os seus mortos e não sabendo nomear o teixo.
É ilusório esperar que de paraísos pelágicos regressem
Antepassados andarilhos com grandes espadas
(Seriam abandonados aos seus expedientes,
Se alguns tivessem); inútil fingir
Que não se previa tal desenlace como pasto
De cães ou despossuído, subjugado, um escravo:
Entretanto, como devia um cavalheiro comportar-se?

Teria sido uma fraqueza desculpável
Se tivessem cedido a um lamento feminil
Ou, dramatizando a catástrofe, sustentado
Controvérsia estrondosa sobre a morte;
Em seu crédito um leitor concede ainda
Que a língua que amavam se tornou mágoa,
Expirando em truques mecânicos, ridículos,
Acrósticos epanalépticos, ropálicos, anacíclicos:
Em sua honra perene as páginas que escreveram
São tranquilamente fustigadas numa nota erudita,
Desprezadas por uma geração mecanizada para quem
Grunhidos oraculares são profunda sabedoria.

W. H. AUDEN
(1907 - 1973)

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