sexta-feira, abril 22, 2005


Denis Dailleux



À maneira de Edgar Lee Masters
I (D. Feia, velha e sandia)


"Na minha rua todos me conheciam como D. Feia e o meu
caso é tão banal que para contá-lo uma prosa corrida e sem
degraus será mais do que suficiente. Sabei então que fui
professora de História depois de ser filha de pai notário
e de mãe ausente (que só no fim da juventude descobri ter
fugido, tinha eu dois anos, para um lugar a Sul, na companhia
de um caixeiro viajante). Cresci numa casa baixa e sem quase
janelas até ao dia em que me formei e quando já desanimava
de me ver feliz e casada como as outras, conheci o Vítor e
entreguei-me a ele com a violência dos desesperados.
A parte mais engraçada vem a seguir quando uma semana
antes da data marcada para o nosso casamento uma voz
anónima me adverte ao telefone que o Sr. Vítor, sua puta,
é já casado. Está muito enganada se pensa que vai tê-Io para
si. E assim a história dos meus pais repetiu-se comigo, mas
não exactamente da mesma maneira. Essa experiência utilizei-
-a muitas vezes - e sempre com sucesso - nas minhas aulas
quando queria exemplificar como os acontecimentos
históricos tendem a reproduzir-se mas trazendo de cada vez
uma nota de imprevisível humor. Sem o que a vida
não seria mais do que rancor, fracasso e aborrecimento."


José Manuel Silva
Ulisses já não mora aqui & etc


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