quinta-feira, maio 15, 2003



Amanhã não sei se será. Não sei se amanhã será, sei lá!? Eu era incapaz de tal barbaridade. E era vermelho, da cor do amor em crepúsculo forçado. Da cor do mar em cânticos entoados na areia dos recifes ancestrais. Longas extensões de amarelo alaranjado, por linhas do horizonte para lá das convencionais linhas do horizonte. Linhas desancoradas do habitual cais de embarque, do enigma do seu limite. E a tua cama equidistante. E a bruma que não cansa de cair. Não. Nove palavras bastam para definir as linhas de uma relação. Nove pedras entaladas num rio seco, em constantes quedas de nada. Um rio seco com flora e fauna viva, ansiando por chuva quente, não-ácida. Por chuva quente, não-ácida. De manhã, cantam as pedras num ritual tribal, numa cerimónia estranha de entes desconhecidos à vista de quem passa. Odes esboçadas por oregas solitárias, nove no fundo do leito cascalhado, encalhado por céus laranja-limão. Sussurros estrondosos. Nove horas de gritos aos céus, nove longas esperas de um fruto que teima não cair. Um rio irado consigo próprio, engasgado nas pedras que ele próprio transportou, que ele próprio resguardou, que protegeu e esculpiu ao longo de nove longas eras de vida e cor e fantasia. Já sei! Amanhã serás tu. A esculpir-me o corpo com bruma da manhã, a proteger-me das pedras que desesperam tentar fugir do rio que outrora lhes deu guarida. Amanhã serás tu a percorrer-me com água fresca, a desenhar-me com vermelhos de crepúsculos ordinários e ordinários. Amanhã serão nove, as horas de partilha.


João Lena

Sem comentários:

 
Free counter and web stats Add to Technorati Favorites