(Mário Cesariny)
quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Cantiga, partindo-se
Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes viestes
Outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
João Roiz de Castelo Branco
(foto Tiago Oliveira)
terça-feira, fevereiro 14, 2006
sexta-feira, fevereiro 10, 2006

13 Moradas em Paris
Alberto Giacometti, nº 46, Rue Hippolyte Maindron, Paris 14 e
Amadeo Modigliani, nº 7, Place Jean Baptiste Clément, Paris 18e
André Gide, nº 2, Rue de Tournon, Paris 6e
Artur Rimbaud, nº 10, Rue de Buci, Paris 6e
Auguste Rodin, nº 77, Rue de Verenne, Paros 7e
Charles-Pierre Baudelaire, nº 17, Quai d’Anjou, Paris 4e
Henri Matisse, nº 19, Quai Saint-Michel, Paris 5e
Pablo Picasso, Bateau Lavoir, Paris, 18e
Paul Cézanne, nº 15, Rue Hégésyppe Moreau, Paris 18e
Paul Verlaine, nº 39, Rue Descartes, Paris 5e
Pierre-Auguste Renoir, nº12, Rue Cortoy, Paris 18e
Vincent Van Gogh, ao cuidado de Théo, nº 54, Rue Lepic, Paris 18e
Victor Hugo, nº 6, Place dês Vosges, Paris 4e
Mário Rui de Oliveira
terça-feira, fevereiro 07, 2006
terça-feira, janeiro 24, 2006
sexta-feira, janeiro 20, 2006
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Outono

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados, dizendo aos pais que era uma árvore.
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
Mas os pais disseram olha é outono.
Edson Russel
quarta-feira, janeiro 04, 2006

LET us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question …
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The Love Song of J. Alfred Prufrock
T.S. Eliot (1888–1965)
sexta-feira, dezembro 30, 2005
if strangers meet
if strangers meet
life begins-
not poor not rich
(only aware)
kind neither
nor cruel
(only complete)
i not not you
not possible;
only truthful
-truthfully,once
if strangers(who
deep our most are
selves)touch:
forever
(and so to dark)
e.e. cummings
sexta-feira, dezembro 16, 2005

Na semana passada saíu-me a Morte para uma coisa, e para a mesma coisa saíu-me uma carta, da qual já não me lembro, que tinha uma conotação sexual muito forte, o que me deixou muito contente. Na segunda tirada saíram-me duas cartas extraordinárias. Mas eu preferia que as cartas da segunda tirada me tivessem saído na primeira...
terça-feira, dezembro 13, 2005

de profundis amamus
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
Mário Cesariny
quarta-feira, dezembro 07, 2005
quarta-feira, novembro 30, 2005

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
Alberto Caeiro
quinta-feira, novembro 24, 2005

Os Perigos
Disse Mirtias (estudante sírio
em Alexandria, sob o reinado
de Constante Augusto e Constâncio Augusto;
em parte gentio e em parte Cristão):
"Fortalecido pela contemplação e o estudo,
não temerei, como um covarde, minhas paixões.
Entregarei meu corpo aos prazeres,
aos gozos mais sonhados,
aos mais ousados desejos eróticos,
aos impulsos lascivos de meu sangue, sem
medo algum, pois quando quiser
- e hei de querer, fortalecido
como estarei pela contemplação e o estudo -
encontrarei de novo nos momentos mais críticos
meu espirito ascético de outrora."
Konstandinos Kavafis
quinta-feira, novembro 17, 2005
terça-feira, novembro 15, 2005

Storm At Night
Oh, how aquarium-still, how brooding-warm
This paradise! How peacefully in the womb
Of war itself, and at the heart of storm
How safely - safely a captive, in a tomb -
I lie and, listening to the wild assault,
The pause and once-more fury of the gale,
Feel through the crack of my sepulchral vault
The fine-drawn probe of air, and watch the pale
Unearthly lightenings leap across the sky
Like sudden sperm and die and leap again.
The thunder calls and every spasm of fire
Beckons, a signal, to that old desire
In calm for tempest and at ease for pain.
Dreaming of strength and courage, here I lie.
Aldous Huxley










