terça-feira, janeiro 24, 2006



Se estou
sozinha na neve
é obvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Inger Christensen

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Outono II, gostaria




Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento


Boris Vian

quinta-feira, janeiro 19, 2006



Outono



Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados, dizendo aos pais que era uma árvore.

Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono.

Edson Russel

sexta-feira, janeiro 13, 2006




Amava tudo
no mundo.
E tinha apenas
o meu caderno
branco
debaixo do sol.


Sandro Penna

quarta-feira, janeiro 04, 2006



LET us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question …
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The Love Song of J. Alfred Prufrock
T.S. Eliot (1888–1965)

sexta-feira, dezembro 30, 2005


if strangers meet


if strangers meet
life begins-
not poor not rich
(only aware)
kind neither
nor cruel
(only complete)
i not not you
not possible;
only truthful
-truthfully,once
if strangers(who
deep our most are
selves)touch:
forever


(and so to dark)

e.e. cummings

sexta-feira, dezembro 16, 2005




Na semana passada saíu-me a Morte para uma coisa, e para a mesma coisa saíu-me uma carta, da qual já não me lembro, que tinha uma conotação sexual muito forte, o que me deixou muito contente. Na segunda tirada saíram-me duas cartas extraordinárias. Mas eu preferia que as cartas da segunda tirada me tivessem saído na primeira...

terça-feira, dezembro 13, 2005




de profundis amamus


Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

Mário Cesariny

quarta-feira, dezembro 07, 2005

quarta-feira, novembro 30, 2005






Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro

quinta-feira, novembro 24, 2005




Os Perigos

Disse Mirtias (estudante sírio

em Alexandria, sob o reinado

de Constante Augusto e Constâncio Augusto;

em parte gentio e em parte Cristão):

"Fortalecido pela contemplação e o estudo,

não temerei, como um covarde, minhas paixões.

Entregarei meu corpo aos prazeres,

aos gozos mais sonhados,

aos mais ousados desejos eróticos,

aos impulsos lascivos de meu sangue, sem

medo algum, pois quando quiser

- e hei de querer, fortalecido

como estarei pela contemplação e o estudo -

encontrarei de novo nos momentos mais críticos

meu espirito ascético de outrora."


Konstandinos Kavafis

quinta-feira, novembro 17, 2005




Chanson d'automne

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure ;

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine



terça-feira, novembro 15, 2005



Storm At Night

Oh, how aquarium-still, how brooding-warm
This paradise! How peacefully in the womb
Of war itself, and at the heart of storm
How safely - safely a captive, in a tomb -
I lie and, listening to the wild assault,
The pause and once-more fury of the gale,
Feel through the crack of my sepulchral vault
The fine-drawn probe of air, and watch the pale
Unearthly lightenings leap across the sky
Like sudden sperm and die and leap again.
The thunder calls and every spasm of fire
Beckons, a signal, to that old desire
In calm for tempest and at ease for pain.
Dreaming of strength and courage, here I lie.

Aldous Huxley


quinta-feira, novembro 10, 2005



I want to be old and wise.

segunda-feira, novembro 07, 2005


quarta-feira, novembro 02, 2005


Assim Falava Zaratustra Friedrich Wilhelm Nietzsche

Não temos saudades nenhumas da escola, de chegar a casa para os deveres já noite cerrada. Temos saudades das férias. E quando tivermos filhos não vamos levá-los à escola: daremos assim início a uma tribo de selvagens no meio da civilização.

quarta-feira, outubro 26, 2005






António Franco Alexandre

quarta-feira, outubro 19, 2005



Os Epígonos

É inútil invocar Apolo num caso como o deles,
Os deuses amantes do prazer morreram nos seus tronos
E nenhum jamais se levantaria, embora
Tribos guturais tivessem passado o Grande Rio,
Queimando os seus mortos e não sabendo nomear o teixo.
É ilusório esperar que de paraísos pelágicos regressem
Antepassados andarilhos com grandes espadas
(Seriam abandonados aos seus expedientes,
Se alguns tivessem); inútil fingir
Que não se previa tal desenlace como pasto
De cães ou despossuído, subjugado, um escravo:
Entretanto, como devia um cavalheiro comportar-se?

Teria sido uma fraqueza desculpável
Se tivessem cedido a um lamento feminil
Ou, dramatizando a catástrofe, sustentado
Controvérsia estrondosa sobre a morte;
Em seu crédito um leitor concede ainda
Que a língua que amavam se tornou mágoa,
Expirando em truques mecânicos, ridículos,
Acrósticos epanalépticos, ropálicos, anacíclicos:
Em sua honra perene as páginas que escreveram
São tranquilamente fustigadas numa nota erudita,
Desprezadas por uma geração mecanizada para quem
Grunhidos oraculares são profunda sabedoria.

W. H. AUDEN
(1907 - 1973)

sexta-feira, outubro 14, 2005




A ÍNDOLE DA MULTIDÃO

Há suficiente traição, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra o Assassinato.
E Os Melhores No Ódio São Aqueles
Que Pregam O AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
-ENFIM- SÃO AQUELES QUE PREGAM a
PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam a Paz
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM o AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado Com Os Conhecedores.

Cuidado
Com Aqueles
Que Estão SEMPRE
a ler
LIVROS

Cuidado Com Aqueles Que Ou Detestam
A Pobreza Ou se Orgulham Dela

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Elogiar
Pois Precisam de LOUVORES Em Retorno

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Censurar:
Esses Temem O Que
Desconhecem

Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantemente
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos

Cuidado
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
CUIDADO Com O Amor Deles

O seu Amor É Vulgar, Busca
Vulgaridade
Mas Há Força no Seu Ódio
Há Força Suficiente no Seu
Ódio para matar, Para Matar
Qualquer Um.

Não Esperando a Solidão
Não Entendendo a Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que defira
Deles Mesmos

Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão A Arte

Considerarão o Seu Fracasso
Apenas Como uma Falha
Do Mundo

Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles ACREDITARÃO Que o Seu Amor É
Incompleto
ENTÃO ODIAR-TE-ÃO
E o Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta

Charles Bukowski

terça-feira, outubro 11, 2005






THE river's tent is broken: the last fingers of leaf
Clutch and sink into the wet bank. The wind
Crosses the brown land, unheard. The nymphs are departed. 175
Sweet Thames, run softly, till I end my song.
The river bears no empty bottles, sandwich papers,
Silk handkerchiefs, cardboard boxes, cigarette ends
Or other testimony of summer nights. The nymphs are departed.
And their friends, the loitering heirs of city directors; 180
Departed, have left no addresses.
By the waters of Leman I sat down and wept...
Sweet Thames, run softly till I end my song,
Sweet Thames, run softly, for I speak not loud or long.

T.S. Eliot, The Waste Land 1922
 
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