quarta-feira, novembro 30, 2005

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
Alberto Caeiro
quinta-feira, novembro 24, 2005

Os Perigos
Disse Mirtias (estudante sírio
em Alexandria, sob o reinado
de Constante Augusto e Constâncio Augusto;
em parte gentio e em parte Cristão):
"Fortalecido pela contemplação e o estudo,
não temerei, como um covarde, minhas paixões.
Entregarei meu corpo aos prazeres,
aos gozos mais sonhados,
aos mais ousados desejos eróticos,
aos impulsos lascivos de meu sangue, sem
medo algum, pois quando quiser
- e hei de querer, fortalecido
como estarei pela contemplação e o estudo -
encontrarei de novo nos momentos mais críticos
meu espirito ascético de outrora."
Konstandinos Kavafis
quinta-feira, novembro 17, 2005
terça-feira, novembro 15, 2005

Storm At Night
Oh, how aquarium-still, how brooding-warm
This paradise! How peacefully in the womb
Of war itself, and at the heart of storm
How safely - safely a captive, in a tomb -
I lie and, listening to the wild assault,
The pause and once-more fury of the gale,
Feel through the crack of my sepulchral vault
The fine-drawn probe of air, and watch the pale
Unearthly lightenings leap across the sky
Like sudden sperm and die and leap again.
The thunder calls and every spasm of fire
Beckons, a signal, to that old desire
In calm for tempest and at ease for pain.
Dreaming of strength and courage, here I lie.
Aldous Huxley
quinta-feira, novembro 10, 2005
segunda-feira, novembro 07, 2005
quarta-feira, outubro 26, 2005
quarta-feira, outubro 19, 2005

Os Epígonos
É inútil invocar Apolo num caso como o deles,
Os deuses amantes do prazer morreram nos seus tronos
E nenhum jamais se levantaria, embora
Tribos guturais tivessem passado o Grande Rio,
Queimando os seus mortos e não sabendo nomear o teixo.
É ilusório esperar que de paraísos pelágicos regressem
Antepassados andarilhos com grandes espadas
(Seriam abandonados aos seus expedientes,
Se alguns tivessem); inútil fingir
Que não se previa tal desenlace como pasto
De cães ou despossuído, subjugado, um escravo:
Entretanto, como devia um cavalheiro comportar-se?
Teria sido uma fraqueza desculpável
Se tivessem cedido a um lamento feminil
Ou, dramatizando a catástrofe, sustentado
Controvérsia estrondosa sobre a morte;
Em seu crédito um leitor concede ainda
Que a língua que amavam se tornou mágoa,
Expirando em truques mecânicos, ridículos,
Acrósticos epanalépticos, ropálicos, anacíclicos:
Em sua honra perene as páginas que escreveram
São tranquilamente fustigadas numa nota erudita,
Desprezadas por uma geração mecanizada para quem
Grunhidos oraculares são profunda sabedoria.
W. H. AUDEN
(1907 - 1973)
sexta-feira, outubro 14, 2005

A ÍNDOLE DA MULTIDÃO
Há suficiente traição, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra o Assassinato.
E Os Melhores No Ódio São Aqueles
Que Pregam O AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
-ENFIM- SÃO AQUELES QUE PREGAM a
PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam a Paz
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM o AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado Com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
Que Estão SEMPRE
a ler
LIVROS
Cuidado Com Aqueles Que Ou Detestam
A Pobreza Ou se Orgulham Dela
CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Elogiar
Pois Precisam de LOUVORES Em Retorno
CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Censurar:
Esses Temem O Que
Desconhecem
Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantemente
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
CUIDADO Com O Amor Deles
O seu Amor É Vulgar, Busca
Vulgaridade
Mas Há Força no Seu Ódio
Há Força Suficiente no Seu
Ódio para matar, Para Matar
Qualquer Um.
Não Esperando a Solidão
Não Entendendo a Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que defira
Deles Mesmos
Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão A Arte
Considerarão o Seu Fracasso
Apenas Como uma Falha
Do Mundo
Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles ACREDITARÃO Que o Seu Amor É
Incompleto
ENTÃO ODIAR-TE-ÃO
E o Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
Charles Bukowski
terça-feira, outubro 11, 2005

| THE river's tent is broken: the last fingers of leaf | |
| Clutch and sink into the wet bank. The wind | |
| Crosses the brown land, unheard. The nymphs are departed. | 175 |
| Sweet Thames, run softly, till I end my song. | |
| The river bears no empty bottles, sandwich papers, | |
| Silk handkerchiefs, cardboard boxes, cigarette ends | |
| Or other testimony of summer nights. The nymphs are departed. | |
| And their friends, the loitering heirs of city directors; | 180 |
| Departed, have left no addresses. | |
| By the waters of Leman I sat down and wept... | |
| Sweet Thames, run softly till I end my song, | |
| Sweet Thames, run softly, for I speak not loud or long. T.S. Eliot, The Waste Land 1922 |
quinta-feira, setembro 22, 2005

when faces called flowers float out of the ground
and breathing is wishing and wishing is having-
but keeping is downward and doubting and never
-it's april(yes,april;my darling)it's spring!
yes the pretty birds frolic as spry as can fly
yes the little fish gambol as glad as can be
(yes the mountains are dancing together)
when every leaf opens without any sound
and wishing is having and having is giving-
but keeping is doting and nothing and nonsense
-alive;we're alive,dear:it's(kiss me now)spring!
now the pretty birds hover so she and so he
now the little fish quiver so you and so i
(now the mountains are dancing, the mountains)
when more than was lost has been found has been found
and having is giving and giving is living-
but keeping is darkness and winter and cringing
-it's spring(all our night becomes day)o,it's spring!
all the pretty birds dive to the heart of the sky
all the little fish climb through the mind of the sea
(all the mountains are dancing;are dancing)
e.e. cummings
quinta-feira, setembro 15, 2005
terça-feira, setembro 06, 2005

O meu amor é furtivo
O meu amor é furtivo
como o amor de um pobre.
Qualquer um pode roubá-lo.
E eu terei de deixá-lo.
Por isso, rio silente,
por isso, minha suave colina,
não lhe posso chamar
amor simplesmente.
Mas tu, colina de ouro,
e tu, rio indolente,
sabeis que o meu amor
é mesmo um grande amor.
O perigo odiado
não existe para já?
Mas vós sabeis, amigos,
que no meu coração está.
A chorar me vereis,
ó vós, sempre felizes,
não como agora choro,
não de felicidade.
Sandro Penna
sexta-feira, setembro 02, 2005
O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta. Mas o destino deles era encontrarem-se, e a hora finalmente havia chegado.
"O pássaro livre cantou:
- Meu amor voemos para o bosque.
O pássaro preso sussurrou:
- Vem cá, e vivamos juntos nesta gaiola.
O pássaro livre respondeu:
- Entre as grades não há espaço para abrir as asas.
- Ah, lamentou o pássaro engaiolado - no céu não saberia onde pousar.
O pássaro livre cantou:
- Amor querido, canta as canções do campo.
O pássaro preso respondeu:
- Fica junto comigo, e eu te ensinarei as palavras dos sábios.
O pássaro da floresta retrucou:
- Não, não! As canções não podem ser ensinadas!
E o pássaro engaiolado gemeu:
- Ai de mim! Eu não conheço as canções do campo.
Entre eles o amor era sem limites, mas eles não podiam voar asa com asa. Olhavam-se através das grades da gaiola, mas em vão desejavam se conhecer. Batiam as asas ansiosamente, e cantavam:
- Chega mais perto, meu amor!
Mas o pássaro livre dizia:
- Não posso! Tenho medo de tua gaiola com portas fechadas.
E o pássaro engaiolado sussurrava:
- Ai de mim! As minhas asas ficaram fracas e morreram."
Rabindranath Tagore










