domingo, maio 01, 2005






Petição dirigida às autoridades do Dubai, apelando à libertação do realizador Ivo M Ferreira detido desde o passado dia 5 de Abril.



sexta-feira, abril 22, 2005


Denis Dailleux



À maneira de Edgar Lee Masters
I (D. Feia, velha e sandia)


"Na minha rua todos me conheciam como D. Feia e o meu
caso é tão banal que para contá-lo uma prosa corrida e sem
degraus será mais do que suficiente. Sabei então que fui
professora de História depois de ser filha de pai notário
e de mãe ausente (que só no fim da juventude descobri ter
fugido, tinha eu dois anos, para um lugar a Sul, na companhia
de um caixeiro viajante). Cresci numa casa baixa e sem quase
janelas até ao dia em que me formei e quando já desanimava
de me ver feliz e casada como as outras, conheci o Vítor e
entreguei-me a ele com a violência dos desesperados.
A parte mais engraçada vem a seguir quando uma semana
antes da data marcada para o nosso casamento uma voz
anónima me adverte ao telefone que o Sr. Vítor, sua puta,
é já casado. Está muito enganada se pensa que vai tê-Io para
si. E assim a história dos meus pais repetiu-se comigo, mas
não exactamente da mesma maneira. Essa experiência utilizei-
-a muitas vezes - e sempre com sucesso - nas minhas aulas
quando queria exemplificar como os acontecimentos
históricos tendem a reproduzir-se mas trazendo de cada vez
uma nota de imprevisível humor. Sem o que a vida
não seria mais do que rancor, fracasso e aborrecimento."


José Manuel Silva
Ulisses já não mora aqui & etc


quinta-feira, abril 14, 2005


Claudine Doury


Pour Toi Mon Amour

Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au á la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
Des lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour

Jacques Prévert





quarta-feira, abril 13, 2005



A Algibeira do Primeiro-Ministro

Quando vocês forçavam o governo para se livrar das bombas H
não resolviam o problema
Bombas H são dinossauros
Qualquer governo ficaria satisfeito em livrar-se delas!
Enquanto celebram a vitória eles vão inventar uma arma nuclear
tão pequena que caberá na algibeira do Primeiro-Ministro
Ele vai tirá-la do bolso para a mostrar aos netos enquanto caval-
gam no seu joelho durante o Natal
O vosso problema não é como se livrar das bombas H
Mas como mudar a sociedade

Edward Bond - Coros para depois dos assassinatos
(tradução de Luís Mestre)

domingo, abril 10, 2005

Samuel Beckett



Serena I

fora do monumental Museu Britânico
Tales e o Aretino
no seio do Regent’s Park a phlox
dá estalidos sob o trovão
beleza escarlate no nosso mundo peixe morto à deriva
todas as coisas repletas de deuses
comprimidos e sangrantes
um pássaro tecelão é tangerina a harpia já não quer saber
nem o condor na sua boá imunda
de olhos fixos olham sob a serra dos macacos e contemplam os elefantes
a Irlanda
devagar a luz avança na sua ravina nativa
suga-me para longe para a segurança
do bem ardente de Jorge a broca
ah do outro lado do caminho uma víbora
enceta o seu rato
branco como a neve
na sua deslumbrante corrente de forno de peristalse
lamae labor

ah pai pai que estás no céu

Dou por mim confundindo o Palácio de Cristal
com as Ilhas Afortunadas de Primrose Hill
ai de mim devo ser assim mesmo
por isso em Ken Wood quem me encontrará
a respiração retida no meio das moitas
só os namorados perseguidos
surpreendo-me impelido pelos muitos funil articulado
para prestar preito a Tower Bridge
a cortesia da víbora que vai e vem da City
até que na penumbra uma barcaça
cega de orgulho
atira para longe com as escarvas das básculas
depois no porão cinzento da ambulância
palpitando mesmo no escoar dos suspiros
depois aperto-me lá em baixo entre a canalha
até que um garoto da rua malditas as suas olheiras
pergunta se já acabei de ler o Mirror
em fúria tremenda e a passos coléricos passo debaixo dos Alojamentos para Casados
a Torre Sangrenta
e lá ao longe a toda a velocidade descortino a gigantesca cabana de Wren
e amaldiçoo o dia enjaulado ofegante na plataforma
debaixo de uma urna bojuda
não nasci um Defoe

mas em Ken Wood
quem me encontrará


minha irmã a mosca
mosca caseira vulgar
saindo do lado das trevas para a luz
agarra-se ao seu lugar ao sol
afia as suas seis pernas
rejubila no seu voo planado no seu voo pairante
é o Outono da sua vida
não poderia servir a febre tifóide e mammon.

Samuel Beckett

sexta-feira, abril 08, 2005

Meteorológica


Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia tão bonito
e eu
não fornico


Adília Lopes





Martin Kollar

quarta-feira, abril 06, 2005


Non posso eu, meu amigo

Non posso eu, meu amigo,
con vossa soidade
viver, ben vo-lo digo;
e por esto morade,
amigo, u mi possades
falar e me vejades.

Non posso u vos non vejo
viver, ben o creede,
tan muito vos desejo;
e por esto vivede,
amigo, u mi possades
falar e me vejades.

Nasci em forte ponto;
e, amigo, partide
o meu gran mal sen conto,
e por esto guaride,
amigo, u mi possades
falar e me vejades.

Guarrei, ben o creades,
senhor, u me mandades.

D. Dinis




sexta-feira, abril 01, 2005



For me my glory is an
Humble ephemeral Absinthe
Drunk on the sly, with fear of treason
and if I drink it no longer,
it is for a good reason.



Paul Verlaine



Edgar Degas, L'absinthe 1876 - Musee d'Orsay, Paris


Je Bois





Je bois
Systématiquement
Pour oublier les amis de ma femme
Je bois
Systématiquement
Pour oublier tous mes emmerdements





Je bois
N'importe quel jaja
Pourvu qu'il fasse ses douze degrés cinque
Je bois
La pire des vinasses
C'est dégueulasse, mais ça fait passer l'temps





La vie est-elle tell'ment marrante
La vie est-elle tell'ment vivante
Je pose ces deux questions
La vie vaut-elle d'être vécue
L'amour vaut-il qu'on soit cocu
Je pose ces deux questions
Auxquelles personne ne répond... et





Je bois
Systématiquement
Pour oublier le prochain jour du terme
Je bois
Systématiquement
Pour oublier que je n'ai plus vingt ans





Je bois
Dès que j'ai des loisirs
Pour être saoul, pour ne plus voir ma gueule
Je bois
Sans y prendre plaisir
Pour pas me dire qu'il faudrait en finir...





Boris Vian

terça-feira, março 29, 2005



Ni les combats des amoureuses nuits
Ni les plaisirs que les amours conçoivent
Ni les faveurs que les amans reçoivent
Ne valent pas un seul de mes ennuis.

Heureus ennui, en toi seulet je puis
Truver repos des maus qui me deçoivent:
Et par toi seul mes passions reçoivent
Le dous obli du torment où je suis.

Bienheureus soit mon torment qui n’empire,
Et le dous jou, sous lequel je respire,
Et bienheureus le penser soucieus,

Qui me repait du dous souvenir d’elle:
Et plus heureus le foudre de ses yeux,
Qui cuit mon coeur dans un feu qui me gelle.

Pierre de Ronsard

Esteban Pastorino

domingo, março 27, 2005


Cristina García Rodero


Claudine Doury

sexta-feira, março 25, 2005



Spring is like a perhaps hand



III

Spring is like a perhaps hand
(which comes carefully
out of Nowhere)arranging
a window,into which people look(while
people stare
arranging and changing placing
carefully there a strange
thing and a known thing here)and

changing everything carefully

spring is like a perhaps
Hand in a window
(carefully to
and fro moving New and
Old things,while
people stare carefully
moving a perhaps
fraction of flower here placing
an inch of air there)and

without breaking anything.



E. E. Cummings

segunda-feira, março 21, 2005



The Tiger


Tiger, tiger, burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
When thy heart began to beat,
What dread hand forged thy dread feet?

What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dared its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears
And watered heaven with their tears,
Did He smile his work to see?
Did He who made the lamb make thee?

Tiger, tiger, burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


William Blake






domingo, março 13, 2005


Miquel Dewever-Plana


Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver friamente
a realidade nua
sem ninfas de iludir
ou violinos de lua.

Vai-te, Poesia!

Não transformes o mundo
descarnado e terrível
num céu de esquecer
com mendigos de nuvens
famintos de estrelas
e feridas a cheirarem a cravos
- enquanto os outros, os de carne verdadeira,
uivam em vão
a sua fome de cadelas
e de pão.

Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!

Sofia de Mello Breyner Anderson

segunda-feira, março 07, 2005


Linha de água


Todos por Um

A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza


Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de
recorrer à vala comum

Mário Cesariny de Vasconcelos

sexta-feira, março 04, 2005

A Casada Infiel
Garcia Lorca

Eu que a levei ao rio,
crendo que era uma donzela,
porém já tinha marido.

Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os candeeiros
e alumiaram-se os grilos.
Já nas últimas esquinas
toquei seus peitos dormidos
e de pronto se me abriram
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava no meu ouvido,
como um pedaço de seda
por dez facas destruídos.
Sem luz de prata nas copas
têm as árvores crescido
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

Passadas as amoreiras,
os juncos e os espinhos,
abrigando em seu cabelo
fiz um fojo sobre o limo.
Tirei eu minha gravata.
Tirou ela o seu vestido.
Eu o cinto do revólver.
ela os quatro corpetinhos.
Nem os nardos nem as conchas
têm pele de toque tão fino,
nem os cristais com a lua
reluzem com esse brilho.
Suas coxas se me escapam
como peixes surpreendidos,
por metade são de lume,
por metade são de frio.
Essa noite percorri
o melhor de tais caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Não quero dizer, por homem,
coisas que ela ali me há dito.
A luz deste entendimento
faz-me ser mui comedido.

Suja de beijos e areia,
comigo a levei do rio.
Com o ar se entrechocavam
espadas feitas de lírios.
Portei-me como quem sou.
Como um cigano legítimo.
Dei-lhe um estojo de costura
grande de cetim palhiço,
e não quis enamorar-me
porque tendo já marido
me disse que era donzela
quando eu a levava ao rio.

(tradução de Vasco Graça Moura)

domingo, fevereiro 27, 2005


Arnauld Baumann


PLANO PARA SALVAR VENEZA

I
Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande
Canal e pedi uma coca cola... É terrível chegar ao fim
do século dos refrigerantes com esta infinita sensação
de sede.

O século vinte é um vasto deserto de poços de petróleo.
Perfurei o solo da minha terra mas o que me saiu foi
um jacto de poemas.

Prospecções recentemente efectuadas revelaram que sob
as areias movediças de Veneza se encontra um dos maiores
lençóis petrolíferos da Europa.



Esta noite tive um pesadelo. Nas minhas veias não era
sangue que corria era petróleo. E acabara eu de desco-
brir um poço de sangue.

Eu não estive em Awshwitz nem em Babi Yar nem em
Mai Lai. Estive sempre aqui na cama.

& a visão da primeira bomba no céu de Hiroshima fez-me
crescer momentaneamente a água na boca, assim como
a milhares de apreciadores de cogumelos.



Einstein foi uma espécie de pirilampo, uma das raras
Pessoas a possuir luz própria num século onde a maio-
ria tacteava no escuro.

24 july 1969 5 am. Neil Armstrong punha o primeiro
pé na lua. Eu dormia profundamente. E o meu sono
tornou-se nesse momento setenta quilos mais pesado.

Desde que os americanos descobriram que as estrelas
tinham pulgas que não me deixa esta comichão sideral.



O meu século não chegou a andar de gatas. Com oito
anos já se arrastava pelas minas de carvão, pouco tempo
depois combatia nas trincheiras. E as únicas lágrimas
que lhe vi chorar foram as dos gases lacrimogéneos.

Picasso morreu antes que pudesse levar a cabo o seu
sonho, um único fresco que ocupasse não a abóbada da
Capela Sixtina mas a abóbada celeste.

Fernando Pessoa morrera muitos anos antes numa clí-
nica lisboeta completamente ignorado, depois de ter
colocado um padrão com a cruz das quinas num dos
areais de areia mais fina do universo.

Talvez o meu século seja uma comédia banal, embora
filmada por homens de talento, onde algumas estrelas
se passeiam com tanto àvontade como se fosse na Via
Láctea e de que a generalidade dos participantes desco-
nhece o argumento.



II
Todos os anos o Adriático cresce alguns milímetros so-
bre Veneza, o século vinte ameaçado pelas águas.

O que é que se pode esperar de um século que foi cons-
truído sobre estacas?

A melhor maneira de conhecer o meu século é de gôndola.

Cada vez mais se apodera de mim a convicção de que
a tua salvação passa pela salvação de Veneza (se é que
não são uma e a mesma coisa).



A não ser que se tomem as devidas providências, dentro
em breve será celebrada na catedral de S. Marcos a
primeira missa submarina para cardumes de peixes
boquiabertos.

Antes disso porém o leão alado baterá as asas e regressará
de novo a Tiro.

Calma! Não há razão para entrarem em pânico. Veneza
não será destruída pelas águas mas sim pelo fogo.

Eu tenho um plano concreto para salvar Veneza. O que
me parece é que ninguém está disposto a colaborar
comigo. Estou a ser alvo de um complot e isto não é
paranóia minha. Ainda ontem os seres vermelhos e
azuis que vivem no sótão me confirmaram o facto.



Eu sou o condottiere Bartolomeo Calleoni. Hoje apeei-me
do meu cavalo e passei anonimamente pela minha Sere-
níssima República.

Quando é que a Ponte del Paradiso será de novo aberta
ao tráfego?

Aproximam-se épocas de grande religiosidade. Para
me preparar vou cultivando religiosamente a cera nos
ouvidos.

Prepara-se um século barbudo e de olhos claros.
Na altura da fuga vestia umas calças de bombasina
lilás, um blusão negro e um lenço branco ao pescoço.
Fugiu da História porque a História era demasiado
pequena para ele.



Testemunhas oculares reconheceram-no quando tomava
um vaporetto perto de Santa Maria della Salutte

Hoje descobri que era uma reincarnação de um doge.
Voltei a Veneza e ainda não desisti de recuperar o meu
palácio nas margens do grande canal a uma colónia de
ratos.

Eu sou a má consciência do meu século. Tenho a cabeça
cheia de ratos e não consigo ver-me livre deles. Nenhum
raticida (o trigo roxo inclusive) se revelou ainda eficaz.

Todas as pessoas deixam uma marca indelével no
século por onde passam, uma pegada na areia ou o
nome escrito em letras de oiro no pedestal de estátuas.
A única marca que quero deixar é uma pequena mor-
dedura atrás da orelha.

Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande
Canal... A meus pés corria agora um extenso caudal de
coca cola.


Jorge de Sousa Braga



domingo, fevereiro 20, 2005


Claudine Doury


IX


no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno


e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço


e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)


diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

Mário Cesariny de Vasconcelos

domingo, fevereiro 06, 2005


Michael Ackerman


A Lua e o Teixo


Esta é a luz do espírito, fria e planetária.
As árvores do espírito são negras. A luz é azul.
As ervas descarregam o seu pesar a meus pés como se eu fosse Deus,
picando-me os tornozelos e sussurrando a sua humildade.
Destiladas e fumegantes neblinas povoam este lugar
que uma fila de lápides separa da minha casa.
Só não vejo para onde ir.

A lua não é uma saída. É um rosto de pleno direito,
branco como o nó dos nossos dedos e terrivelmente perturbado.
Arrasta o mar atrás de si como um negro crime; está mudo
com os lábios em O devido a um total desespero. Vivo aqui.
Por duas vezes, ao domingo, os sinos perturbam o céu:
oito línguas enormes confirmando a Ressurreição.
Por fim, fazem soar os seus nomes solenemente.

O teixo aponta para o alto. Tem uma forma gótica.
Os olhos seguem-no e encontram a lua.
A lua é minha mãe. Não é tão doce como Maria.
As suas vestes azuis soltam pequenos morcegos e mochos.
Como gostaria de acreditar na ternura...
O rosto da efígie, suavizado pelas velas,
é, em particular, para mim que desvia os olhos ternos.

Caí de muito longe. As nuvens florescem,
azuis e místicas sobre o rosto das estrelas.
No interior da igreja, os santos serão todos azuis,
pairando com os seus pés frágeis sobre os bancos frios,
as mãos e os rostos rígidos de santidade.
A lua nada disto vê. É calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é negra: negra e silenciosa.


Sylvia Plath



 
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