A mão no arado
Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua
É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.
Ruy Belo
terça-feira, fevereiro 10, 2004
Antoine d' Agata
Eros e Psique
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
segunda-feira, fevereiro 09, 2004
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
O Sol da Tarde
Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.
Ah este quarto, não é nada estranho.
Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.
Estarão ainda os coitados nalgum lugar.
Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.
...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.
Konstandinos Kavafis
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
W.T.Liszka
Madrid Revisited
Não sei talvez nestes cinquenta versos eu consiga o meu propósito
dar nessa forma objectiva e até mesmo impessoal em mim
habitual
a externa ordenação desta cidade onde regresso
Chove sobre estas ruas desolada e espessa como esmiuçada chuva
a tua ausência líquida molhada e por gotículas multiplicada
0 céu entristeceu há uma solidão e uma cor cinzentas
nesta cidade há meses capital do sol núcleo da claridade
É outra esta cidade esta cidade é hoje a tua ausência
uma imensa ausência onde as casas divergiram em diversas ruas
agora tão diversas que uma tal diversidade faz
desta minha cidade outra cidade
A tua ausência são de preferência alguns lugares determinados
como correos ou café gijón certos domingos como este
para os demais normais só para nós secretamente rituais
se neutros para os outros neutros mesmo para mim
antes de em ti herdar particular significado
A tua ausência pesa nestes loca sacra um por um
os quais mais importantes que lugares em si
são simples sítios que em função de ti somente conheci
e agora se erguem pedra a pedra como monumento da ausência
Não vejo aqui o núcleo geográfico administrativo de um país
capital de edifícios centro donde emanam decisões
complexo de museus bancos jardins vida profissional turismo
que um dia conheci e não conheço mais
Aqui só há o facto de eu saber que fui feliz
e hoje tanto o sei que sei que sê-lo o não serei jamais
12 esta a capital mas capital não de um certo país
capital do teu rosto e dos teus olhos a nenhuns outros iguais
ou de um país profundo e próprio como tu
Madrid é eu saber pedra por pedra e passo a passo como te perdi
é uma cidade alheia sendo minha
é uma coisa estranha e conhecida
Abro a janela sobre o largo e o teatro onde estivemos
e onde na desdémona que vi te vi a ti
Não é chuva afinal que cai só cai a tua ausência
chuva bem mais real e pluvial que se chovesse
Mais do que esta cidade é só certa cidade que jamais houvesse
numa medida tal que apenas lá profundamente eu fosse
e nela só a minha dor como uma pedra condensada
de pé deitada ou de qualquer forma coubesse
uma cidade alta como as coisas que perdi
e eu logo perdi apenas conheci
pois mais que a ela conheci-te a ti
Foi de uma altura assim que eu caí
superior à própria torre desse hotel
por muitos suicidas escolhida para fim de vida
Não é esta cidade essa cidade onde vivi
onde fui ao cinema e trabalhei e passeei
e na chama do corpo próprio a mim sem compaixão me consumi
Aqui foi a cidade onde eu te conheci
e logo ao conhecer-te mais que nunca te perdi
Deve haver quase um ano mais que ao ver-te vi
que ao ver-te te não vi e te perdi ao ter-te
Mas a esta cidade muitos dão o nome de madrid
Ruy Belo
quarta-feira, janeiro 28, 2004
segunda-feira, janeiro 26, 2004
domingo, janeiro 25, 2004
sábado, janeiro 24, 2004
sexta-feira, janeiro 23, 2004
quinta-feira, janeiro 22, 2004
quarta-feira, janeiro 21, 2004
Reconhecimento à Loucucura
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar
José de Almada Negreiros
terça-feira, janeiro 20, 2004
Antes de dormir pego sempre numa lâmpada e deixo-a cair
da janela.
Moro num 2º andar.
As lâmpadas quando caem no chão, partem-se.
É da física.
Não sei explicar exactamente porque procedo a este ritual
todas as noites.
O que sei é que quando não o faço não consigo dormir.
Quando tenho uma insónia já sei a causa:
esqueci-me de atirar uma lâmpada da janela abaixo.
Quando, por vezes, reparo que já não tenho nenhuma lâm-
pada em casa, vejo-me obrigado a vestir e a percorrer, se for
necessário, a cidade inteira, até encontar o que pretendo.
O meu ritual só funciona com lâmpadas novas, por estrear.
Uma ou outra vez, por preguiça, ou por chover demasiado,
tentei utilizar, numa emergência, lâmpadas retiradas de
candeeiros da casa.
Não resultou.
Insónia incontornável.
E nestas situações não há nada a fazer:
ou ganho coragem para sair ou rendo-me toda a noite à
leitura de um livro.
Quando era novo optava muitas vezes por esta segunda
hipótese.
Adquiri toda a minha cultura devido ao facto de não ter
lâmpadas em casa e de estar a chover muito lá fora.
Lâmpadas inexistentes, insónias intermináveis, livros múlti-
plos.
É esta a sequência da aprendizagem cultural de um grande
vulto da presente sociedade e das futuras: eu!
Parece mentira não é? Mas é assim mesmo:
este homem que aqui vêem deve tudo o que sabe à falta
de lâmpadas.
O que o mundo terá a agradecer a esta escassez é o que
veremos no futuro.
Por mim garanto-vos:
estou destinado a grandes coisas.
Gonçalo M. Tavares
sexta-feira, janeiro 16, 2004
CANTO III
Sentei-me nos degraus da Dogana
Porque as gôngolas custavam muito caro, nesse ano,
E não havia ''aquelas pequenas'' havia uma face,
E o Bucentauro a uma vintena de metros uivando ''Stretti'',
E as vigas-mestras iluminas, esse ano, no Morosini,
E pavões em casa de Koré, ou talvez houvesse.
Deuses flutuavam no ar anil
Luminosos deuses e toscanos, de volta antes de orvalho ser vertido.
Luz: e a primeira luz antes sequer de o orvalho haver caído.
Paniscos, e do carvalho, dríade,
E da maçã, mélida,
Por todo o bosque adentro, e as folhas estão cheias de vozes,
Em sussurro, e as nuvens curvam-se sobre o lago,
E há deuses sobre elas,
E na água banhistas de amendoada brancura,
A água prateada vidra o mamilo voltado para cima,
Como Poggio notou.
Verdes veios na turquesa,
Ou os degraus pardos sobem sob os cedros.
O meu Cid cavalgou para Burgos,
Até à porta pregueada entre duas torres,
Bateu com o canto da lança, e a criança apareceu,
Una niña de nueve años,
Na pequena galeria sobre a porta, entre as torres
a ler o decreto, voce tinnula:
Que ninguém fale, dê pousada, ajude a Ruy Diaz,
Sob pena de ter o coração arrancado, e posto no pico de um pique,
E ambos os olhos vazados, e todos os bens confiscados,
''E aqui. Mio Cid, estão os selos,
o selo real e a firma''.
E ele desceu de Bivar, Mio Cid,
Sem deixar lá falcões nos seus poleiros,
E roupa alguma lá nas prensas,
E deixou a sua arca com Raquel e Vidas,
O grande baú de areia com os agiotas,
Para arranjar a para da mesnada;
E fez-se de caminho para Valência.
Inês de Castro assassinada, e a parede
Aqui despida, aqui feita para ficar.
Triste destroço, o pigmento escama-se da pedra,
Ou argamassa descascada, Mantegna pintou a parede.
Trapos de seda, ''Nec Spe Nec Metu''.
Ezra Pound
quinta-feira, janeiro 15, 2004
A Decisão
Vocês são a favor ou contra?
Respondam sim ou não.
Decerto já pensaram no problema.
Creio sinceramente que ele os tem preocupado.
Tudo na vida traz preocupações
Crianças mulheres insectos
Plantas nocivas, horas sem proveito
Paixões difíceis, dentes cariados
Filmes medíocres. E isto decerto os preocupa.
Sejam responsáveis e digam: Sim ou não.
A vocês é que cabe decidir.
Não lhes pedimos evidentemente que abandonem
Suas ocupações, que interrompam sua vida
O jornal preferido o bate-papo
No barbeiro os domingos ao ar livre.
Uma palavra só. Vamos, então:
Vocês são contra ou a favor?
Pensem bem: Eu fico à espera.
Manólis Anagnostákis
sábado, janeiro 10, 2004
Estar vestido de branco deste homem é evidente que nunca voltará a ser encontrado
Depois o choque duma lança contra um elmo aqui o músico fez maravilhas
É toda a razão que se vai quando podia soar a hora sem que tu estejas presente
Nas sombras do cenário permite-se ao povo contemplar os grandes festins
Comer em cena é sempre do agrado geral
De dentro da empada rematada a faisões
Anões metade pretos metade arco-íris levantam a tampa
E soltam-se ajaezado de guizos e de risos
Brilho contrastado de vestígios de tiros das côdeas sobrantes
Plano sequência do baile dos Ardentes flash-back desfocado do episódio que vem logo
a seguir ao do cervo
Um homem talvez ágil demais desce do alto das torres de Notre-Dame
A rodopiar numa corda
Seu pêndulo de archotes clarão insólito à luz do dia
A sarça dos cinco selvagens quatro deles cativos um do outro o sol de plumas
O duque de Orléans segura o facho a mão a mão fatal
Às oito horas da noite tempos depois a mão
Não esquece a brincar com a luva
A mão a luva uma vez duas vezes três vezes
A um canto com o palácio mais branco em fundo as belas feições ambíguas de Pedro de
Luna a cavalo
Personificando o segundo luminar
Acabar sobre o brasão da rainha em lágrimas
A mágoa Nada mais me é nada nada me é mais nada
Sim sem ti
O sol
André Breton
(Marselha, Dezembro de 1940)
