segunda-feira, fevereiro 09, 2004




Laurence Leblanc

sábado, fevereiro 07, 2004




Paul Strand
Tailor's Apprentice, Luzzara, Italy, 1952

sexta-feira, fevereiro 06, 2004



O Sol da Tarde


Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.


Ah este quarto, não é nada estranho.


Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.


Estarão ainda os coitados nalgum lugar.


Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.


...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.


Konstandinos Kavafis

quarta-feira, fevereiro 04, 2004




W.T.Liszka


Madrid Revisited


Não sei talvez nestes cinquenta versos eu consiga o meu propósito
dar nessa forma objectiva e até mesmo impessoal em mim
habitual
a externa ordenação desta cidade onde regresso
Chove sobre estas ruas desolada e espessa como esmiuçada chuva
a tua ausência líquida molhada e por gotículas multiplicada
0 céu entristeceu há uma solidão e uma cor cinzentas
nesta cidade há meses capital do sol núcleo da claridade
É outra esta cidade esta cidade é hoje a tua ausência
uma imensa ausência onde as casas divergiram em diversas ruas
agora tão diversas que uma tal diversidade faz
desta minha cidade outra cidade
A tua ausência são de preferência alguns lugares determinados
como correos ou café gijón certos domingos como este
para os demais normais só para nós secretamente rituais
se neutros para os outros neutros mesmo para mim
antes de em ti herdar particular significado
A tua ausência pesa nestes loca sacra um por um
os quais mais importantes que lugares em si
são simples sítios que em função de ti somente conheci
e agora se erguem pedra a pedra como monumento da ausência
Não vejo aqui o núcleo geográfico administrativo de um país
capital de edifícios centro donde emanam decisões
complexo de museus bancos jardins vida profissional turismo
que um dia conheci e não conheço mais
Aqui só há o facto de eu saber que fui feliz
e hoje tanto o sei que sei que sê-lo o não serei jamais
12 esta a capital mas capital não de um certo país
capital do teu rosto e dos teus olhos a nenhuns outros iguais
ou de um país profundo e próprio como tu
Madrid é eu saber pedra por pedra e passo a passo como te perdi
é uma cidade alheia sendo minha
é uma coisa estranha e conhecida
Abro a janela sobre o largo e o teatro onde estivemos
e onde na desdémona que vi te vi a ti
Não é chuva afinal que cai só cai a tua ausência
chuva bem mais real e pluvial que se chovesse
Mais do que esta cidade é só certa cidade que jamais houvesse
numa medida tal que apenas lá profundamente eu fosse
e nela só a minha dor como uma pedra condensada
de pé deitada ou de qualquer forma coubesse
uma cidade alta como as coisas que perdi
e eu logo perdi apenas conheci
pois mais que a ela conheci-te a ti
Foi de uma altura assim que eu caí
superior à própria torre desse hotel
por muitos suicidas escolhida para fim de vida
Não é esta cidade essa cidade onde vivi
onde fui ao cinema e trabalhei e passeei
e na chama do corpo próprio a mim sem compaixão me consumi
Aqui foi a cidade onde eu te conheci
e logo ao conhecer-te mais que nunca te perdi
Deve haver quase um ano mais que ao ver-te vi
que ao ver-te te não vi e te perdi ao ter-te
Mas a esta cidade muitos dão o nome de madrid


Ruy Belo

quarta-feira, janeiro 28, 2004






Para que lado se há-de virar o girassol
quando cercado por milhares de sóis?


Provérbio Zen

segunda-feira, janeiro 26, 2004



Gilda“If you’re worried about Johnny Farrell, don’t be, I hate him!”


domingo, janeiro 25, 2004






Keith Arnatt, self burial


É como o olhar a meia-luz. Senti-lo e beijar no escuro, ou sonhar com o que eu quero. É sentir o ar ferver em toques suaves, e toques suaves ou o teu toque no meu toque e o borbulhar até amanhecer.


sábado, janeiro 24, 2004






Migrant Mother, 1936
Dorothea Lange

sexta-feira, janeiro 23, 2004

O tempo é outro tempo nas terras pequenas
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração em festa.


Ruy Belo

quinta-feira, janeiro 22, 2004




Bride with a Fan, Marc Chagall (1911)


Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.


António Ramos Rosa

quarta-feira, janeiro 21, 2004



Reconhecimento à Loucucura


Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?


Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar


José de Almada Negreiros

terça-feira, janeiro 20, 2004



Antes de dormir pego sempre numa lâmpada e deixo-a cair
da janela.
Moro num 2º andar.
As lâmpadas quando caem no chão, partem-se.
É da física.


Não sei explicar exactamente porque procedo a este ritual
todas as noites.
O que sei é que quando não o faço não consigo dormir.
Quando tenho uma insónia já sei a causa:
esqueci-me de atirar uma lâmpada da janela abaixo.
Quando, por vezes, reparo que já não tenho nenhuma lâm-
pada em casa, vejo-me obrigado a vestir e a percorrer, se for
necessário, a cidade inteira, até encontar o que pretendo.
O meu ritual só funciona com lâmpadas novas, por estrear.
Uma ou outra vez, por preguiça, ou por chover demasiado,
tentei utilizar, numa emergência, lâmpadas retiradas de
candeeiros da casa.
Não resultou.
Insónia incontornável.
E nestas situações não há nada a fazer:
ou ganho coragem para sair ou rendo-me toda a noite à
leitura de um livro.
Quando era novo optava muitas vezes por esta segunda
hipótese.
Adquiri toda a minha cultura devido ao facto de não ter
lâmpadas em casa e de estar a chover muito lá fora.
Lâmpadas inexistentes, insónias intermináveis, livros múlti-
plos.
É esta a sequência da aprendizagem cultural de um grande
vulto da presente sociedade e das futuras: eu!
Parece mentira não é? Mas é assim mesmo:
este homem que aqui vêem deve tudo o que sabe à falta
de lâmpadas.
O que o mundo terá a agradecer a esta escassez é o que
veremos no futuro.
Por mim garanto-vos:
estou destinado a grandes coisas.


Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Um(a) exposição de fotografia de Miguel Meira
a partir de hoje no Museu da Imagem, Braga


CANTO III


Sentei-me nos degraus da Dogana
Porque as gôngolas custavam muito caro, nesse ano,
E não havia ''aquelas pequenas'' havia uma face,
E o Bucentauro a uma vintena de metros uivando ''Stretti'',
E as vigas-mestras iluminas, esse ano, no Morosini,
E pavões em casa de Koré, ou talvez houvesse.
Deuses flutuavam no ar anil
Luminosos deuses e toscanos, de volta antes de orvalho ser vertido.
Luz: e a primeira luz antes sequer de o orvalho haver caído.
Paniscos, e do carvalho, dríade,
E da maçã, mélida,
Por todo o bosque adentro, e as folhas estão cheias de vozes,
Em sussurro, e as nuvens curvam-se sobre o lago,
E há deuses sobre elas,
E na água banhistas de amendoada brancura,
A água prateada vidra o mamilo voltado para cima,
Como Poggio notou.
Verdes veios na turquesa,
Ou os degraus pardos sobem sob os cedros.


O meu Cid cavalgou para Burgos,
Até à porta pregueada entre duas torres,
Bateu com o canto da lança, e a criança apareceu,
Una niña de nueve años,
Na pequena galeria sobre a porta, entre as torres
a ler o decreto, voce tinnula:
Que ninguém fale, dê pousada, ajude a Ruy Diaz,
Sob pena de ter o coração arrancado, e posto no pico de um pique,
E ambos os olhos vazados, e todos os bens confiscados,
''E aqui. Mio Cid, estão os selos,
o selo real e a firma''.
E ele desceu de Bivar, Mio Cid,
Sem deixar lá falcões nos seus poleiros,
E roupa alguma lá nas prensas,
E deixou a sua arca com Raquel e Vidas,
O grande baú de areia com os agiotas,
Para arranjar a para da mesnada;
E fez-se de caminho para Valência.
Inês de Castro assassinada, e a parede
Aqui despida, aqui feita para ficar.
Triste destroço, o pigmento escama-se da pedra,
Ou argamassa descascada, Mantegna pintou a parede.
Trapos de seda, ''Nec Spe Nec Metu''.


Ezra Pound

quinta-feira, janeiro 15, 2004



A Decisão


Vocês são a favor ou contra?
Respondam sim ou não.
Decerto já pensaram no problema.
Creio sinceramente que ele os tem preocupado.
Tudo na vida traz preocupações
Crianças mulheres insectos
Plantas nocivas, horas sem proveito
Paixões difíceis, dentes cariados
Filmes medíocres. E isto decerto os preocupa.
Sejam responsáveis e digam: Sim ou não.
A vocês é que cabe decidir.
Não lhes pedimos evidentemente que abandonem
Suas ocupações, que interrompam sua vida
O jornal preferido o bate-papo
No barbeiro os domingos ao ar livre.
Uma palavra só. Vamos, então:
Vocês são contra ou a favor?
Pensem bem: Eu fico à espera.


Manólis Anagnostákis

sábado, janeiro 10, 2004



Estar vestido de branco deste homem é evidente que nunca voltará a ser encontrado
Depois o choque duma lança contra um elmo aqui o músico fez maravilhas
É toda a razão que se vai quando podia soar a hora sem que tu estejas presente


Nas sombras do cenário permite-se ao povo contemplar os grandes festins
Comer em cena é sempre do agrado geral
De dentro da empada rematada a faisões
Anões metade pretos metade arco-íris levantam a tampa
E soltam-se ajaezado de guizos e de risos
Brilho contrastado de vestígios de tiros das côdeas sobrantes
Plano sequência do baile dos Ardentes flash-back desfocado do episódio que vem logo
a seguir ao do cervo
Um homem talvez ágil demais desce do alto das torres de Notre-Dame
A rodopiar numa corda
Seu pêndulo de archotes clarão insólito à luz do dia
A sarça dos cinco selvagens quatro deles cativos um do outro o sol de plumas
O duque de Orléans segura o facho a mão a mão fatal
Às oito horas da noite tempos depois a mão
Não esquece a brincar com a luva
A mão a luva uma vez duas vezes três vezes
A um canto com o palácio mais branco em fundo as belas feições ambíguas de Pedro de
Luna a cavalo
Personificando o segundo luminar
Acabar sobre o brasão da rainha em lágrimas
A mágoa Nada mais me é nada nada me é mais nada
Sim sem ti
O sol

André Breton
(Marselha, Dezembro de 1940)

quinta-feira, janeiro 08, 2004



Sedia-M’Eu na Ermida de Sam Simion
<


f.c.


Mendinho

quarta-feira, janeiro 07, 2004

Transida luz despenha
como a hora antiga sobre as praças
um sossego póstumo às coisas.

José Miguel Braga

quarta-feira, dezembro 31, 2003



Tu estás aqui


Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


Ruy Belo
 
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