quinta-feira, novembro 06, 2003



Búffalo Bill stá
defunto
o que andava (sentado)
num cavalo
de prata como a água corrente
e matava umdoistrêsquatrocinco gajos assim sem mais Deus meu
era um belo homem
e o que eu quero saber é
se gostas do teu rapaz de olhos azuis
Dona Morte

e. e cummings

sexta-feira, outubro 31, 2003




António Franco Alexandre

terça-feira, outubro 28, 2003



Childe Harold – Canto Quarto

I.

Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido

Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto

Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alba da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida.

Sophia de Mello Breyner Anderson

quarta-feira, outubro 22, 2003



A Missão das Folhas

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento.

Ruy Belo

domingo, outubro 19, 2003



É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece

e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor

José Tolentino Mendonça

domingo, outubro 05, 2003



6 outubro 2003 21:30 seg fnac colombo lx apresentação do livro carne torpe de eugénia brito noite de talentos um livro que fala das relações humanas com uma envolvente componente estética. uma leitura contemporânea que o vai prender da primeira a última página eu diria palavra


quinta-feira, outubro 02, 2003

Hier au soir

Hier, le vent du soir, dont le souffle caresse,
Nous apportait l'odeur des fleurs qui s'ouvrent tard;
La nuit tombait; l'oiseau dormait dans l'ombre épaisse.
Le printemps embaumait, moins que votre jeunesse;
Les astres rayonnaient, moins que votre regard.
Moi, je parlait tout bas. C'est l'heure solennelle
Où l'âme aime à chanter son hymne le plus doux.
Voyant la nuit si pure et vous voyant si belle,
J'ai dit aux astres d'or: Versez le ciel sur elle!
Et j'ai dit à vos yeux: Versez l'amour sur nous!

Victor Hugo

quarta-feira, outubro 01, 2003




Edward Hopper


A palavra

A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugídio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

António Ramos Rosa

terça-feira, setembro 30, 2003



Gazal do Amor Desesperado

A noite não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei,
mesmo que um sol de lacraus me coma as têmporas.

Mas tu virás,
com a língua queimada pela chuva de sal.

O dia não quer vir,
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei
entregando aos sapos o meu cravo mordido.

Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridão.

Nem a noite nem o dia querem vir
para que eu morra por ti
e tu morras por mim.


Federico Garcia Lorca

segunda-feira, setembro 29, 2003



Eu disse a Deus: – Que importa,
Senhor, à tua glória
que sobre mim se feche a eterna porta
do túmulo, e não fique mais memória
deste verme de um dia na terra que o sumia?

Não foi teu braço forte
que do seio do nada
tirou a vida, e mandou logo a morte
para trazer eterno equilibrado
entre o ser e o não ser
nossa força e poder?

Escrito nas estrelas,
clamado pelos ventos,
bradado pelos mares nas procelas
no céu, na terra, em imortais acentos
Por toda parte está
o nome de Jeová.

Na imensa natureza
a voz do homem é nada.


Almeida Garrett

domingo, setembro 28, 2003



Ela: Julga-se que se sabe. E, afinal, não se sabe nada. Nunca


Marguerite Duras, Hiroshima Meu Amor

quinta-feira, setembro 25, 2003






O Vermelho Por Dentro

Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar
é negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro.

Os corpos eram negros
sobre o mar a água era de noite
não se via o vermelho por dentro
os corpos não se viam
eram barcos com os ventres todos negros
e as línguas eram de águas muito rentes
A sangue não sabia
não se via o vermelho por dentro
o céu a água envolvia
tudo envolvia nos vermelhos dentros
e os mares todas as noites estavam negros
negros por dentro
E a água volvia pelo céu tão negra
e à noite por dentro do mar todo vermelho
a noite era vermelha
e os barcos negros por dentro
E nos corpos a água negra era vermelha por dentro
e eles estavam envolvidos
e

Ana Hatherly
Para o Mário Zé: Atrás dos Panos


Atrás do pano negro
a carta que acabo de enviar
Atrás do pano de ferro
uma cidade-teatro onde gostaria de viver
Atrás do pano de flanela
escritórios às dez horas da manhã
Atrás da seda cor-de-rosa
um camelo
Atrás do pano de sarapilheira
cidades do litoral
Atrás do pano cru
chuvas de segunda-feira
O veludo sobe
noite de Veneza
O pano de mármore
mar sem comportas
Atrás do pano de rede
eu a dormir diante da piscina

Vitezlav Nezval

quarta-feira, setembro 24, 2003

Uma mulher acende o lume de manhã e toda a casa se expande
até surgir uma outra paisagem.
Unem-se as suas mãos terrosas numa suplica de água. Alguma
coisa rompe no seu ventre um filho, quem sabe, uma tempes-
tade.
No ombro do vento, adormece. Uma mulher cansada adormece.

Manuela Parreira da Silva

terça-feira, setembro 23, 2003

"O senhor foi sempre um ardente defensor da teoria segundo a qual quando se corta a cabeça de um homem a sua vida pára, ele transforma-se em cinza e desaparece no não ser. Apraz-me informá-lo, diante dos meus convidados, embora eles próprios sejam prova de uma teoria completamente diferente, que a sua teoria é sólida e engenhosa. Aliás, todas as teorias se equivalem umas às outras. Há entre elas uma, segundo a qual, a cada um será dado consoante a sua fé. Pois que assim seja! O senhor desaparecerá no nada, e eu, da taça em que o senhor se vai transformar, beberei com muita alegria ao ser."

Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakov

segunda-feira, setembro 22, 2003

a um rato morto encontrado num parque


Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas — tão junto ao focinho! —
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário

Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo — com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa — e aos médicos —
ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos — vítima e carrasco

Não tinha amigos? Enganava os pais?

Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.

Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?

Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?

Mário Cesariny

terça-feira, setembro 16, 2003



Marc Chagall


Ouvistes na floresta a voz nocturna
Do bardo do amor, da tristeza o bardo?
A voz da flauta, simples e soturna,
Quando pela alva o campo está calado,
Ouviste-la?

Achastes no escuro ermo do bosque
O bardo do amor, da tristeza o bardo?
Achastes sorriso, sinais de choro
Ou um brando olhar de mágoa pejado,
Achaste-lo?

Suspirastes ao som da mansa voz
Do bardo do amor, da tristeza o bardo?
Ao avistardes um moço no bosque
E chocando em seu olhar mirrado,
Suspirastes?

Aleksandr Púchkin

segunda-feira, setembro 15, 2003



O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou simplesmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

sábado, setembro 13, 2003



Everything is far
and long gone by.
I think that the star
glittering above me
has been dead for a million years.
I think there were tears
in the car I heard pass
and something terrible was said.
A clock has stopped striking in the house
across the road...
When did it start?...
I would like to step out of my heart
an go walking beneath the enormous sky.
I would like to pray.
And surely of all the stars that perished
long ago,
one still exists.
I think that I know
which one it is--
which one, at the end of its beam in the sky,
stands like a white city...

Rainer Maria Rilke

sexta-feira, setembro 12, 2003



AOS AMIGOS

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


Herberto Helder

terça-feira, setembro 09, 2003



Despede nisto o fero moço as setas
Uma após outra: geme o mar com os tiros;
Direitas pelas ondas inquietas
Algumas vão, e algumas fazem giros;
Caem as Ninfas, lançam das secretas
Entranhas ardentíssimos suspiros;
Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:
Que tanto, como a vista, pode a fama.

Os cornos ajuntou da ebúrnea lua
Com força o moço indômito excessiva,
Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,
Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.
Já não fica na aljava seta alguma,
Nem nos equóreos campos Ninfa viva;
E se feridas ainda estão vivendo,
Será para sentir que vão morrendo.


Os Lusíadas, Canto XIX
Luiz de Camões

segunda-feira, setembro 08, 2003



Vá, recolhe-me! Recolhe-me as lágrimas que eu não adivinho, acolhe-me o choro, que eu não divulgo... Atordoa-me que o que eu quero afinal, é enjoar de ti. Palavra! Já só faltam doze notas para te compor, para te poder dispor. Não vás já, minha sinfonia. Não, não te insulto. Não te desespero. Não te grito a saudade porque não me encontrarás a falta. Não sinto por forma, sinto a embriaguez do teu respirar exausto - Sinto que caio.

Carne Torpe, Eugénia Brito

domingo, setembro 07, 2003



Fermoso Tejo me, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste!
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste
claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem ter largo campo não resiste,
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente.

Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem . Oh, quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca primavera!
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era!


Francisco Rodrigues Lobo

quinta-feira, setembro 04, 2003



O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


Alberto Caeiro

quarta-feira, setembro 03, 2003



ADEUS

Ele:
Amor, tenho de partir
Enquanto a noite fecha os olhos
Dos espiões familiares;
Esta canção anuncia a alba

Ela:
Não, a ave da noite e do amor
Reclama o repouso dos verdadeiros amantes,
Enquanto a sua alta canção reprova
O sigilo assassino do dia.

Ele:
Já a luz do dia se eleva
Sobre os cumes da montanha.

Ela:
É a luz do dia.

Ele:
Aquela ave...

Ela:
Deixa-a cantar,
Ao jogo do amor ofereço
Meus escuros declives.

W. B. Yeats

terça-feira, setembro 02, 2003

e como tudo é possível hoje pintei as unhas das mãos e dos pés com estrelinhas (que comprei na loja dos chineses com a ajuda do jorge) mas agora tenho soluços e o verniz está a sair. tanta coisa e depois não deu em nada,
a fatiminha diz para pensarmos no que comemos anteontem...

ah, já sei o que comi anteontem. o antónio fez um jantar maravilhoso e estivemos a combinar a operação deserto.

só que os soluços não passaram!


Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella suena en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fria plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la estan mirando
y ella no puede mirarlas.

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduno,
eriza sus pitas agrias.
Pero quien vendra? y por donde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando la mar amarga.

Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los puertos de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
este trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo.
Ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sabanas de holanda.
No veis la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo.
Ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
dejadme subir!, dejadme
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.

Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lagrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panaderos de cristal.
herian la madrugada.

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
Compadre! Donde esta, dime?
Donde esta tu nina amarga?
Cuantas veces te espero!
Cuantas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!

Sobre el rostro del aljibe,
se mecia la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fria plata.
Un carambano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche se puso intima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

Federico Garcia Lorca

segunda-feira, setembro 01, 2003

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quando assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena

domingo, agosto 31, 2003

Voici des fruits, des fleurs, des feuilles et des branches
Et puis voici mon coeur qui ne bat que pour vous.
Ne le déchirez pas avec vos deux mains blanches
Et qu'à vos yeux si beaux l'humble présent soit doux.

J'arrive tout couvert encore de rosée
Que le vent du matin vient glacer à mon front.
Souffrez que ma fatigue à vos pieds reposée
Rêve des chers instants qui la délasseront.

Sur votre jeune sein laissez rouler ma tête
Toute sonore encore de vos derniers baisers;
Laissez-la s'apaiser de la bonne tempête,
Et que je dorme un peu puisque vous reposez.


Paul Verlaine

sexta-feira, agosto 29, 2003

A Bela Acordada

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para
sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a
mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que
pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe
morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao
rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às
criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.

Adília Lopes
Teu Corpo Principia

Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz

António Ramos Rosa

quinta-feira, agosto 28, 2003

Verão, Outono

Antigamente havia em mim um nome gravado a fogo e eu
morria por ele. Eu fechava os olhos e o nome pedia-me a luz,
a manhã, a música. Antigamente eu imaginava a delicadeza,
as florestas, os bosques reduzidos ao silêncio pelos subterrâneos

da tarde, e ser tocado no rosto era ser ferido por uma imensa
beleza, pelos olhos da planície, como um animal adormecido,
com um lugar onde deitar a cabeça e adormecer sonhando
com o deserto. No deserto eu estava a salvo, caminhando nos

declives e havia palavras imensas, palavras como o trigo e o mar
e as raízes e os relâmpagos e um rosto e os campos do Outono
e isso era como ficar cego no meio da luz estremecendo entre
as poeiras, as cores da manhã, as veredas dos bosques. E eu olho

fixamente esse rosto de fogo, toco uma vez essas mãos, amo
demoradamente a distância, comovo-me perdido na sua
voz, enquanto passa no mundo uma estranha ventania.


Francisco José Viegas

quarta-feira, agosto 27, 2003

Quer'eu em maneira de proençal
fazer agora un cantar d'amor,
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.
Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a faz, que a fez sabedor
de todo ben e de mui gran valor,
e con todo est'é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bon sen,
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh'outra foss'igual.
Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.


El-Rei D. Dinis

terça-feira, agosto 26, 2003

Estará o meu senhor a assobiar
à sua porta, ou quereria entrar de noite,
sem chave, no meu coração?

Sandro Penna

domingo, agosto 24, 2003

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

sábado, agosto 23, 2003

Quem fala de partir, de despedidas...
Quantas vezes parti na minha vida,
me despedi de vez de gente e de lugares
a que voltei para encontrá-los outros...
Nem contar posso. E às vezes despedir
foi só pisar com vã melancolia
as ruas de cidades onde não deixava
ninguém que me lembrasse. Às vezes foi
apenas receber por um relance vago
a imagem de um recanto ou de uma luz
iluminando nevoentos muros...
Não muitos terão tido a vida inteira
esta febre de andar por vários mundos
buscando ansioso o nada nosso e deles
que ao menos nada finge em gente e coisas...
E não terão, portanto, na memória
o tanto haver partido para longe,
para saberem que se parte sempre,
e não se volta nunca. O mesmo amor
que fiel aguarda o regressarmos não
é o mesmo já, mesmo se mais ardente
sob os cabelos que lhe são mais brancos.


Jorge de Sena

sexta-feira, agosto 22, 2003

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.



Ricardo Reis

quinta-feira, agosto 21, 2003

Demoro este caminho
as moradas mais altas
assombreando os bosques.

José Miguel Braga

quarta-feira, agosto 20, 2003

Visto a esta luz

Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te uma ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos nautas dos navios espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre como não te querer?
mas esta luz de sinopla nas calças!
Este interposto objecto
E o seu leve peso de eternidade

Mário Cesariny

segunda-feira, agosto 18, 2003

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu : voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d'ombre ; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles ;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes ;

U, cycles, vibrement divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides
Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges :
- O l'Oméga, rayon violet de Ses Yeux !


Jean-Arthur Rimbaud

sábado, agosto 16, 2003

São as águas de Março que eu traço.
Decanto o Abril num funil de estanho e Maio não estranho.
Salto para Agosto que é um desgosto.
O Setembro é um membro do meu corpo. Do Outubro não sei falar.
Novembro e Dezembro fazem-me temer Janeiro e Fevereiro.
Em Junho e Julho como ameixas.

Vânia Ribeiro

sexta-feira, agosto 15, 2003

Caem as Ameixas

As ameixas vão caindo:
Já só ficam sete em dez.
Para o jovem que me busca
Vai chegando a sua vez.

As ameixas vão caindo:
Já só restam trinta em cem.
Para o jovem que me busca
É chegada a hora e bem.

As ameixas vão caindo,
Que eu apanho numa cesta.
Para o jovem que me busca
De o dizer a hora é esta.

Shijing (Livro dos Cantardes)

quinta-feira, agosto 14, 2003

Dizem que o sul do rio é bonito,
O viajante apenas concorda ficar lá até morrer,
A água, na Primavera, é mais azul que o céu,
No barco pintado ouço a chuva dormindo.

A rapariga ao lado do jarro de vinho é bonita como a lua,
Os pulsos brancos brilham como geada e neve.
Ainda não estou velho, não volto a casa,
Regressando a casa ficarei com o coração destroçado.

Wei Zhuang

segunda-feira, agosto 11, 2003

Enivrez-vous

Il faut être toujours ivre. Tout est là : c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l´horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.

Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.

Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l´herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est ; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront : “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous ; enivrez-vous sans cesse ! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.

Baudelaire, Le Spleen de Paris

quarta-feira, julho 30, 2003

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands



e. e. cummings

terça-feira, julho 29, 2003

à linda ANITA

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner


domingo, julho 27, 2003

ontem vi no british museum a mumia para quem este poema de amor do antigo egipto foi escrito

Se fores à casa coberta de hera
Antes dos outros convidados chegarem,
Põe-te à vontade
Na sala dos banquetes.

As flores mexem-se com a brisa,
A qual, se não estiver toda envolta em perfume,
Há-de conseguir levar até ti
Pelo menos a excelência de alguma da sua fragância.

O perfume alastra,
A embriaguês começa.

Aquela rapariga ali, a que se parece com Noubt:
Se tiveres a sorte de a receber como presente,
Meu amigo, deves estar preparado para oferecer em sacrifício a tua vida
Pois é a única coisa que podes dar em troca.

quarta-feira, julho 23, 2003

A-yâ nafsu lâ tajza'i wa-sbirî
Wa-illâ fa-inna l-hawâ mutlifû
Habibun jafâki wa-qalbun'asâki
Wa-lâhin lahâki wa-lâ minsifû
Sujûnun mana'na l-jufûna l-karâ
wa' awwadnahâ admu'an tanzafû

al - Mu'tamid
(rei de Sevilha)

terça-feira, julho 22, 2003

mesmo sem acentos

O meu coracao assumiu todas as formas:
a de uma pastagem para gazelas e a de um convento para monges cristaos,
um templo para idolos e uma caaba para peregrinos,
as tabuas de uma tora e as paginas de um alcorao.
Sigo a religiao do amor;
para onde quer que sigam os camelos do amor,
o amor e a minha religiao e a minha fe.

Ibn Arabi
Everything is far
and long gone by.
I think that the star
glittering above me
has been dead for a million years.
I think there were tears
in the car I heard pass
and something terrible was said.
A clock has stopped striking in the house
across the road...
When did it start?...
I would like to step out of my heart
an go walking beneath the enormous sky.
I would like to pray.
And surely of all the stars that perished
long ago,
one still exists.
I think that I know
which one it is--
which one, at the end of its beam in the sky,
stands like a white city...

Rainer Maria Rilke

domingo, julho 20, 2003

A Varanda de Julieta

Uma vez entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.

Nuno Júdice


sábado, julho 19, 2003

As Quatro Manhãs

Primeira Manhã


Quando cheguei devia ser tarde,
já tinham dividido tudo
pelos outros e seus descendentes.
Só havia o céu por cima dos telhados
lá muito alto
para eu respirar
e sonhar.
Tudo o mais
cá embaixo
era dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
e o mar
e o ar
tudo medido
dividido a régua e compasso
pelos outros e seus descendentes.
No mundo inteiro
não faltava ninguém
depois dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
era estrangeira
mais este pedaço onde nasci.
Não me deixaram nada
nada mais do que o sonhar.
Eu que sonhasse!
E eu que amo a vida mais do que o sonho
e o sonho e a vida juntos
mais do que ambos separados
e que não sei sonhar senão a vida
e que não sei viver senão o sonho
hei-de ficar aqui
entre os outros e seus descendentes?
Eram meus caminhos
os caminhos murados
só os caminhos eram meus.
Só tinham fim os caminhos
ao começar outros caminhos.
As portas fechadas
as janelas cerradas
só os caminhos eram meus.
A minha viagem não tinha fim
no fim de todos os caminhos.
O fim que tinha era outro
bem perto de mim
em todos os caminhos.
Bem perto de mim andava
aquele que eu buscava,
aquele que não era nenhum dos outros e seus descendentes,
alguém cuja pessoa era eu
que não me achava.
Apenas uma voz me falava e sabia
que eu não era nenhum dos outros e seus descendentes.
E esse que a voz sabia que eu o era
me levava pelos caminhos
os meus olhos primeiros do que eu
e o coração no peito a contar.
A voz sabia-o bem
e eu para me encontrar.
Também vi pelos caminhos
lembro-me de quantos
também como eu
à procura de tantos como eles.
Perdidos vão
perdidos? não!
não achados
não achados ainda.
Perdidos não estão
vão perdidos por se acharem,
vão mortos por se verem a si próprios
como são.
Levam o sonho no ar
e o coração a contar
as idades que é preciso ter
até cada um ser
aquele que vai em si.
Nascer é vir a este mundo
não é ainda chegar a ser.
Nascer é o feito dos outros.
O nosso é depois de nascer
até chegarmos a ser
aquele que o sonho nos faz.
Já sei de cor os caminhos
já sei o que vale a promessa
já vejo perfeito no sonho
o que me há-de a vida imitar.
Mais além
e o sonho e a vida
libertar-se-ão um do outro em mim!

Almada Negreiros

sexta-feira, julho 18, 2003

ainda e outra vez
quantas forem


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo


terça-feira, julho 15, 2003

Som de Negros em Cuba

Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de Cuba,
irei a Santiago.
num carro de água negra
Irei a Santiago.
Vão cantar os tectos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quiser ser cegonha.
irei a Santiago.
E quando quiser ser medusa a bananeira,
irei a Santiago.
Irei a Santiago
com a loura cabeça de Fonseca.
Irei a Santiago.
E com o cor-de-rosa de Romeu e Julieta
irei a Santiago.
Mar de papel e prata de moedas.
Irei a Santiago.
Ó Cuba! Ó ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Ó cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.
Irei a Santiago.
Eu sempre disse que iria a Santiago
num carro de água negra.
Irei a Santiago.
Brisa e álcool nas rodas,
Irei a Santiago.
O meu coral dentro da treva,
irei a Santiago.
O mar afogado na areia,
irei a Santiago.
Calor branco, fruta morta,
irei a Santiago.
Ó bovina frescura de carriços!
Ó Cuba! Ó curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.

Federico Garcia Lorca

"os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira"
Uma Peça Mais Tarde + O Jogo de Ialta de Brian Friel no TNSJ
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


From The Complete Poems 1927-1979 by Elizabeth Bishop,

segunda-feira, julho 14, 2003

Quando me da as boas-vindas

De braços bem abertos

Sinto-me como aqueles viajantes que regressam

Das longinquas terras de Punt.


Tudo se muda; o pensamento, os sentidos,

Em perfume rico e estranho.


E quando ela entreabre os labios para beijar

Fico com a cabeça leve, fico ébrio sem cerveja.


POEMAS DE AMOR DO ANTIGO EGIPTO
traduçao de Helder Moura Pereira

sexta-feira, junho 27, 2003

AH, PODER SER TU, SENDO EU!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo

quinta-feira, junho 26, 2003

Para caminhar sobre a agua é necessario antes de mais
ter os pés grandes. Suficientemente grandes para que
flutuem apesar da gravidade. Para caminhar sobre a
agua temos de descer aos proprios pés. Nao sei se me
faço entender. e dificil, por vezes, fazermo-nos entender
assim a caminhar sobre a agua.

Ha pessoas cujos pés mais parecem folhas de nenufar.
Vivem nos lagos. Afastadas do mundo. De Abril a
Setembro florescem. Escondem no seu seio as flores mais
surpreendentes. Cor-de-rosa de manha, um cor-de-rosa
que se vai tornando progressivamente azul para o fim
do dia.

Ha inumeros lugares onde se pode chegar caminhando
sobre a agua. O que mais me atrai é habitado por car-
dumes de peixes cegos. Nao faz muito tempo que parti.
Talvez (e na melhor da hipoteses) daqui a uns séculos
lhes dê noticias. Quando os dedos dos meus pés – do
halux ao dedo mindinho – de subito de iluminarem.

Jorge de Sousa Braga

sábado, junho 21, 2003

Vejo passar os barcos
sob a chuva

Sentado sobre a ausência

Nenhuma boca
pronuncia
o nome

De mãos vazias
vejo passar
os barcos

Egito Gonçalves

sexta-feira, junho 20, 2003

Antoniologias
Aviz - o weblog de Francisco José Viegas.

quarta-feira, junho 18, 2003

segunda-feira, junho 16, 2003


Príncipe

era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
contudo
quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
mas era de noite
e por isso tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
ah era de noite
e de súbito
tudo era apenas lábios pálpebras
intumescências cobrindo o corpo de flutuantes
volteios de palpitações trémulas adejando
pelo rosto beijava os teus olhos por dentro.
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão
sobre o meu pensamento corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te. são mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.


Ana Hatherly

domingo, junho 15, 2003

Had we but world enough and time
This coyness, Lady, were no crime.
We would sit down and think which way
To walk and pass our long love's day,
Thou by the Indian Ganges' side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the Flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, Lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time's winged chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found,
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long preserved virginity,
And your quaint honor turn to dust,
And into ashes all my lust:
The grave's a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

TO HIS COY MISTRESS
Andrew Marvell (1621–1678)

quando a noite toca os teus pulsos

quando a noite toca os teus pulsos
rebentam em ternura as açucenas
e o mais das flores se inclina
para o peito, o ventre, o calor
desta vida que brilha ao sul.
dá-me a tua mão, dizes,
quero ter contigo o relâmpago
que incendeia na terra os cereais
e no coração desperta as romãs.
procuro árvores, pé ante pé.
na sombra da tua palavra
busco o derradeiro acordar das estrelas
e demoro-me em silêncio
na interrogação dos planetas.
e quando a noite toca os teus pulsos
dá-se em mim uma vida maior
e das janelas apago os olhares
para ficar a sós contigo
no suspiro da terra que nos inventa

Vasco Gato
Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o
livro do não trabalho
e diz cor de rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor de rosa em segredo
a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta
porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que
tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho
a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore


Mario Cesariny

sábado, junho 14, 2003


Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
E a atenção começa a florir, quando sucede a noite
Esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
Se enchem de um brilho precioso
E estremeces como um pensamento chegado. Quando,
Iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
Pelo pressentir de um tempo distante,
E na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
Ao lado do espaço
E o coração é uma semente inventada
Em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
Tu arrebatas os caminhos da minha solidão
Como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
Os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
Correr do espaço -
E penso que vou dizer algo cheio de razão,
Mas quando a sombra cai da curva sôfrega
Dos meus lábios, sinto que me faltam
Um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres
Que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder

sexta-feira, junho 13, 2003

Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca, dentro dos meus braços
Os abraços hão-de ser, milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com este negócio de você
Viver sem mim. Não quero mais este negócio


Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes

quinta-feira, junho 12, 2003

eu posso tentar fazer as coisas todas que me apetecer
mas o que me apetece mesmo é ouvir-te dizer poemas

Soneto

Não será sempre assim... Quando não for;
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior

Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando, um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se for trocando:

Se tal acontecer; fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
"Goza a ventura de que já gozei:"

Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.

e. e. cummings

terça-feira, junho 10, 2003

pergunto se posso dizer o teu nome a uma flor
flor o teu nome sussurado pétala a pétala
letra a letra uma flor desfolhada na terra.


José Luis Peixoto
"A Criança Em Ruínas"
Edições Quasi

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
Poemas 1945-1965, 3ª ed. (1971)



domingo, junho 08, 2003

foi mesmo ela que me deu a quina de paus.

quarta-feira, junho 04, 2003

Devagar me inteiro das coisas.

Devagar ando.
Devagar acordo.
Sou eu devagar em frente à porta.
Devagar entro sem bater.

O que sobretudo tem faltado à minha vida até agora é a simplicidade. Começo a mudar a pouco e pouco.

Por exemplo, actualmente saio sempre de casa com a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.

Se tem as orelhas ou o nariz grandes e feios, tiro-lhos juntamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; so conservo o que me apetece.

Se a sua roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.

As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu fazia tudo como me apetecia.

Agora, tenho sempre belas tardes. (De manhã, trabalho.)




Henri Michaux

"A Simplicidade"

in Antologia

tradução de Margarida Vale de Gato

relógio d'água

segunda-feira, junho 02, 2003

Desde ontem que a noite começa a espreitar.
Dentro dos dias as imagens adormecem.
Os meus olhos não vêm.
Mas os meus lábios acordam-te todas as manhãs.
Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista.
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

RICARDO REIS

domingo, junho 01, 2003


Dia Primeiro

Lembras-te quando as romãs
se apertavam contra o peito?
Era maio. Era o sul.
Quem se lembra de nós? Quem nos respira?
Quem abre as cortinas e espreita,
a saber de nós?

Curaste o rio da rebelião. Curaste a seiva.
Vês como cresce em esplendor?
Desde maio que floresce.
Desde maio. Desde maio
que se desfaz em lágrimas.
Como é sentir o cordão a romper-se?
Como é sentir a terra tão longe, que dá vontade de cair
só para experimentar o delírio da queda,
a solidão do ar que se respira desfeito em partículas?

Não sei onde me fixar,
tenho o olhar perdido, o cabelo em desalinho,
as mãos agitadas à procura.
Que dizer agora que a solidão bate à porta?
Que te dizer, amor, senão que a vida se pode emendar,
que a vida se pode redimir
e retomar o sonho?
Que te dizer senão que o meu sangue se despede
e já nada resta a não ser um acordar?
Um acordar onde tu apedrejas aos anjos e me queimas os olhos no fogo.

Desintegra-te,
respira quando doer, dilacera-te.
Dilacera-te, meu amor.
E de repente acontece sentir.
Era maio. As giestas de maio:
que beleza, que sabor tão doce!
Se eu soubesse partilha-lo contigo
o mundo acabava aqui, no primeiro dia.

Ingrid Choren

terça-feira, maio 27, 2003

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a morte perde o rosto;
Palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)

palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.

Alexandre O’ Neill
o teu sorriso, amor, envergonha a primavera

segunda-feira, maio 26, 2003

"(...) de repente vi que estava triste, mortalmente triste, tão triste que me pareceu impossível viver amanhã, não porque morresse ou me matasse, mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada..."

fernando pessoa

quarta-feira, maio 21, 2003

WE WAVES

WE, we waves,
That are rocking the winds
To rest--
Green cradles, we waves!

Wet are we, and salty;
Leap like flames of fire--
Wet flames are we:
Burning, extinguishing;
Cleansing, replenishing;
Bearing, engendering.

We, we waves,
That are rocking the winds
To rest!

August Strindberg
THE ABSINTHE GUIDE

domingo, maio 18, 2003

Tristesse

J'ai perdu ma force et ma vie,
Et mes amis et ma gaîté;
J'ai perdu jusqu'à la fierté
Qui faisat croire à mon génie.

Quan j'ai connu la Vérité,
J'ai cru que c'était une amie;
quand je l'ai comprise et sentie,
J'en étais féjà dégoûté.

Et pourtant elle est éternelle,
Et ceux qui se sont passés d'elle
Ici-bas ont tout ignoré.

Dieu parle, il faut qu'on lui réponde.
Le seul bien qui me reste au monde
Est d'avoir quelquefois pleuré.

Alfred Musset

sábado, maio 17, 2003

Ruina Romana

Figura de Guizos (Timidamente.)
E se eu me transformasse em formiga?
Figura de Parras (Energico.)
Eu transformava-me em terra.
F.G. (Mais forte.)
E se eu me transformasse em terra?
F.P. (Mais debil.)
Eu transformava-me em agua.
F.G. (Vibrante.)
E se eu me transformasse em agua?
F.P. (Desfalecido.)
Eu transformava-me em peixe-lua.
F.G. (Tremente.)
E se eu me transformasse em peixe-lua?
F.P. (Levantando-se.)
Eu transformava-me em faca. Numa faca afiada durante quatro longas primaveras.

El Publico - Federico Garcia Lorca
eu não sei mas acho que fui eu que andei a mexer onde não devia. é mesmo meu. e agora?
Quem roubou os comentários?

sexta-feira, maio 16, 2003

OLA! Hoje estou muito contente porque vou 3 semanas para a Normandia. Desculpa, Sofia, teve que ser.

quinta-feira, maio 15, 2003



Amanhã não sei se será. Não sei se amanhã será, sei lá!? Eu era incapaz de tal barbaridade. E era vermelho, da cor do amor em crepúsculo forçado. Da cor do mar em cânticos entoados na areia dos recifes ancestrais. Longas extensões de amarelo alaranjado, por linhas do horizonte para lá das convencionais linhas do horizonte. Linhas desancoradas do habitual cais de embarque, do enigma do seu limite. E a tua cama equidistante. E a bruma que não cansa de cair. Não. Nove palavras bastam para definir as linhas de uma relação. Nove pedras entaladas num rio seco, em constantes quedas de nada. Um rio seco com flora e fauna viva, ansiando por chuva quente, não-ácida. Por chuva quente, não-ácida. De manhã, cantam as pedras num ritual tribal, numa cerimónia estranha de entes desconhecidos à vista de quem passa. Odes esboçadas por oregas solitárias, nove no fundo do leito cascalhado, encalhado por céus laranja-limão. Sussurros estrondosos. Nove horas de gritos aos céus, nove longas esperas de um fruto que teima não cair. Um rio irado consigo próprio, engasgado nas pedras que ele próprio transportou, que ele próprio resguardou, que protegeu e esculpiu ao longo de nove longas eras de vida e cor e fantasia. Já sei! Amanhã serás tu. A esculpir-me o corpo com bruma da manhã, a proteger-me das pedras que desesperam tentar fugir do rio que outrora lhes deu guarida. Amanhã serás tu a percorrer-me com água fresca, a desenhar-me com vermelhos de crepúsculos ordinários e ordinários. Amanhã serão nove, as horas de partilha.


João Lena
Para a VÂNIA depois do descanso: EM SINTRA ui

As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.


Luís Miguel Nava
Películas (1979)
in Poesia Completa 1979-1994
Lisboa, Dom Quixote, 2002


Para a VÂNIA, que tudo abraça...

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


Fernando Pessoa, 2-8-1933
TEATRO NACIONAL D. Maria II
Parasitas
De Marius Von Mayenburg, tradução de João Barrento, encenação de Nuno Cardoso, interpretação de António Fonseca, Catarina Requeijo, Cátia Pinheiro, Nuno M. Cardoso, Tónan Quito. Pelo Ao Cabo Teatro.
3ª a Sáb., 21h45; Dom., Às 16h30
22 de Maio a 15 de Junho

quarta-feira, maio 14, 2003



BEING your slave, what should I do but tend
Upon the hours and times of your desire?
I have no precious time at all to spend
Nor services to do, till you require:

Nor dare I chide the world-without-end-hour
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour
When you have bid your servant once adieu:
Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are, how happy you make those

So true a fool is Love, that in your will
Though you do anything, he thinks no ill.

Shakespeare

sexta-feira, maio 09, 2003

Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Natália Correia

domingo, maio 04, 2003

E as crianças que nos dão a mão.

sábado, maio 03, 2003

Olá a todos. Não acham assustador sermos todos tão terrivelmente parecidos nas pequenas coisas?
para a MARTA, que se passeia na tarde como as giestas se passeiam em maio:

it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be--
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands

e e cummings

sexta-feira, maio 02, 2003

Sindicato de Poesia em Coro no Planetário - Porto
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

Luís, tens de me ensinar a por fotos.
 
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