domingo, outubro 19, 2003
É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome
eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece
e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor
José Tolentino Mendonça
domingo, outubro 05, 2003
quinta-feira, outubro 02, 2003
Hier au soir
Hier, le vent du soir, dont le souffle caresse,
Nous apportait l'odeur des fleurs qui s'ouvrent tard;
La nuit tombait; l'oiseau dormait dans l'ombre épaisse.
Le printemps embaumait, moins que votre jeunesse;
Les astres rayonnaient, moins que votre regard.
Moi, je parlait tout bas. C'est l'heure solennelle
Où l'âme aime à chanter son hymne le plus doux.
Voyant la nuit si pure et vous voyant si belle,
J'ai dit aux astres d'or: Versez le ciel sur elle!
Et j'ai dit à vos yeux: Versez l'amour sur nous!
Victor Hugo
Hier, le vent du soir, dont le souffle caresse,
Nous apportait l'odeur des fleurs qui s'ouvrent tard;
La nuit tombait; l'oiseau dormait dans l'ombre épaisse.
Le printemps embaumait, moins que votre jeunesse;
Les astres rayonnaient, moins que votre regard.
Moi, je parlait tout bas. C'est l'heure solennelle
Où l'âme aime à chanter son hymne le plus doux.
Voyant la nuit si pure et vous voyant si belle,
J'ai dit aux astres d'or: Versez le ciel sur elle!
Et j'ai dit à vos yeux: Versez l'amour sur nous!
Victor Hugo
quarta-feira, outubro 01, 2003
Edward Hopper
A palavra
A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugídio
que canta num mar musical o sangue das vogais.
António Ramos Rosa
terça-feira, setembro 30, 2003
Gazal do Amor Desesperado
A noite não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.
Mas eu irei,
mesmo que um sol de lacraus me coma as têmporas.
Mas tu virás,
com a língua queimada pela chuva de sal.
O dia não quer vir,
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.
Mas eu irei
entregando aos sapos o meu cravo mordido.
Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridão.
Nem a noite nem o dia querem vir
para que eu morra por ti
e tu morras por mim.
Federico Garcia Lorca
segunda-feira, setembro 29, 2003
Eu disse a Deus: – Que importa,
Senhor, à tua glória
que sobre mim se feche a eterna porta
do túmulo, e não fique mais memória
deste verme de um dia na terra que o sumia?
Não foi teu braço forte
que do seio do nada
tirou a vida, e mandou logo a morte
para trazer eterno equilibrado
entre o ser e o não ser
nossa força e poder?
Escrito nas estrelas,
clamado pelos ventos,
bradado pelos mares nas procelas
no céu, na terra, em imortais acentos
Por toda parte está
o nome de Jeová.
Na imensa natureza
a voz do homem é nada.
Almeida Garrett
domingo, setembro 28, 2003
quinta-feira, setembro 25, 2003
O Vermelho Por Dentro
Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar
é negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro.
Os corpos eram negros
sobre o mar a água era de noite
não se via o vermelho por dentro
os corpos não se viam
eram barcos com os ventres todos negros
e as línguas eram de águas muito rentes
A sangue não sabia
não se via o vermelho por dentro
o céu a água envolvia
tudo envolvia nos vermelhos dentros
e os mares todas as noites estavam negros
negros por dentro
E a água volvia pelo céu tão negra
e à noite por dentro do mar todo vermelho
a noite era vermelha
e os barcos negros por dentro
E nos corpos a água negra era vermelha por dentro
e eles estavam envolvidos
e
Ana Hatherly
Para o Mário Zé: Atrás dos Panos
Atrás do pano negro
a carta que acabo de enviar
Atrás do pano de ferro
uma cidade-teatro onde gostaria de viver
Atrás do pano de flanela
escritórios às dez horas da manhã
Atrás da seda cor-de-rosa
um camelo
Atrás do pano de sarapilheira
cidades do litoral
Atrás do pano cru
chuvas de segunda-feira
O veludo sobe
noite de Veneza
O pano de mármore
mar sem comportas
Atrás do pano de rede
eu a dormir diante da piscina
Vitezlav Nezval
Atrás do pano negro
a carta que acabo de enviar
Atrás do pano de ferro
uma cidade-teatro onde gostaria de viver
Atrás do pano de flanela
escritórios às dez horas da manhã
Atrás da seda cor-de-rosa
um camelo
Atrás do pano de sarapilheira
cidades do litoral
Atrás do pano cru
chuvas de segunda-feira
O veludo sobe
noite de Veneza
O pano de mármore
mar sem comportas
Atrás do pano de rede
eu a dormir diante da piscina
Vitezlav Nezval
quarta-feira, setembro 24, 2003
terça-feira, setembro 23, 2003
"O senhor foi sempre um ardente defensor da teoria segundo a qual quando se corta a cabeça de um homem a sua vida pára, ele transforma-se em cinza e desaparece no não ser. Apraz-me informá-lo, diante dos meus convidados, embora eles próprios sejam prova de uma teoria completamente diferente, que a sua teoria é sólida e engenhosa. Aliás, todas as teorias se equivalem umas às outras. Há entre elas uma, segundo a qual, a cada um será dado consoante a sua fé. Pois que assim seja! O senhor desaparecerá no nada, e eu, da taça em que o senhor se vai transformar, beberei com muita alegria ao ser."
Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakov
Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakov
segunda-feira, setembro 22, 2003
a um rato morto encontrado num parque
Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas — tão junto ao focinho! —
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário
Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo — com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa — e aos médicos —
ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos — vítima e carrasco
Não tinha amigos? Enganava os pais?
Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.
Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?
Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?
Mário Cesariny
Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas — tão junto ao focinho! —
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário
Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo — com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa — e aos médicos —
ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos — vítima e carrasco
Não tinha amigos? Enganava os pais?
Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.
Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?
Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?
Mário Cesariny
terça-feira, setembro 16, 2003
Marc Chagall
Ouvistes na floresta a voz nocturna
Do bardo do amor, da tristeza o bardo?
A voz da flauta, simples e soturna,
Quando pela alva o campo está calado,
Ouviste-la?
Achastes no escuro ermo do bosque
O bardo do amor, da tristeza o bardo?
Achastes sorriso, sinais de choro
Ou um brando olhar de mágoa pejado,
Achaste-lo?
Suspirastes ao som da mansa voz
Do bardo do amor, da tristeza o bardo?
Ao avistardes um moço no bosque
E chocando em seu olhar mirrado,
Suspirastes?
Aleksandr Púchkin
segunda-feira, setembro 15, 2003
O poema ensina a cair
O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou simplesmente a nós uma homenagem
póstuma.
Luiza Neto Jorge
sábado, setembro 13, 2003
Everything is far
and long gone by.
I think that the star
glittering above me
has been dead for a million years.
I think there were tears
in the car I heard pass
and something terrible was said.
A clock has stopped striking in the house
across the road...
When did it start?...
I would like to step out of my heart
an go walking beneath the enormous sky.
I would like to pray.
And surely of all the stars that perished
long ago,
one still exists.
I think that I know
which one it is--
which one, at the end of its beam in the sky,
stands like a white city...
Rainer Maria Rilke
sexta-feira, setembro 12, 2003
AOS AMIGOS
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder
terça-feira, setembro 09, 2003
Despede nisto o fero moço as setas
Uma após outra: geme o mar com os tiros;
Direitas pelas ondas inquietas
Algumas vão, e algumas fazem giros;
Caem as Ninfas, lançam das secretas
Entranhas ardentíssimos suspiros;
Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:
Que tanto, como a vista, pode a fama.
Os cornos ajuntou da ebúrnea lua
Com força o moço indômito excessiva,
Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,
Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.
Já não fica na aljava seta alguma,
Nem nos equóreos campos Ninfa viva;
E se feridas ainda estão vivendo,
Será para sentir que vão morrendo.
Os Lusíadas, Canto XIX
Luiz de Camões
segunda-feira, setembro 08, 2003
Vá, recolhe-me! Recolhe-me as lágrimas que eu não adivinho, acolhe-me o choro, que eu não divulgo... Atordoa-me que o que eu quero afinal, é enjoar de ti. Palavra! Já só faltam doze notas para te compor, para te poder dispor. Não vás já, minha sinfonia. Não, não te insulto. Não te desespero. Não te grito a saudade porque não me encontrarás a falta. Não sinto por forma, sinto a embriaguez do teu respirar exausto - Sinto que caio.
Carne Torpe, Eugénia Brito
domingo, setembro 07, 2003
Fermoso Tejo me, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste!
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste
claro te vi eu já, tu a mim contente.
A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem ter largo campo não resiste,
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente.
Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem . Oh, quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!
Mas lá virá a fresca primavera!
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era!
Francisco Rodrigues Lobo
quinta-feira, setembro 04, 2003
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro
