terça-feira, julho 29, 2003

à linda ANITA

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner


domingo, julho 27, 2003

ontem vi no british museum a mumia para quem este poema de amor do antigo egipto foi escrito

Se fores à casa coberta de hera
Antes dos outros convidados chegarem,
Põe-te à vontade
Na sala dos banquetes.

As flores mexem-se com a brisa,
A qual, se não estiver toda envolta em perfume,
Há-de conseguir levar até ti
Pelo menos a excelência de alguma da sua fragância.

O perfume alastra,
A embriaguês começa.

Aquela rapariga ali, a que se parece com Noubt:
Se tiveres a sorte de a receber como presente,
Meu amigo, deves estar preparado para oferecer em sacrifício a tua vida
Pois é a única coisa que podes dar em troca.

quarta-feira, julho 23, 2003

A-yâ nafsu lâ tajza'i wa-sbirî
Wa-illâ fa-inna l-hawâ mutlifû
Habibun jafâki wa-qalbun'asâki
Wa-lâhin lahâki wa-lâ minsifû
Sujûnun mana'na l-jufûna l-karâ
wa' awwadnahâ admu'an tanzafû

al - Mu'tamid
(rei de Sevilha)

terça-feira, julho 22, 2003

mesmo sem acentos

O meu coracao assumiu todas as formas:
a de uma pastagem para gazelas e a de um convento para monges cristaos,
um templo para idolos e uma caaba para peregrinos,
as tabuas de uma tora e as paginas de um alcorao.
Sigo a religiao do amor;
para onde quer que sigam os camelos do amor,
o amor e a minha religiao e a minha fe.

Ibn Arabi
Everything is far
and long gone by.
I think that the star
glittering above me
has been dead for a million years.
I think there were tears
in the car I heard pass
and something terrible was said.
A clock has stopped striking in the house
across the road...
When did it start?...
I would like to step out of my heart
an go walking beneath the enormous sky.
I would like to pray.
And surely of all the stars that perished
long ago,
one still exists.
I think that I know
which one it is--
which one, at the end of its beam in the sky,
stands like a white city...

Rainer Maria Rilke

domingo, julho 20, 2003

A Varanda de Julieta

Uma vez entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.

Nuno Júdice


sábado, julho 19, 2003

As Quatro Manhãs

Primeira Manhã


Quando cheguei devia ser tarde,
já tinham dividido tudo
pelos outros e seus descendentes.
Só havia o céu por cima dos telhados
lá muito alto
para eu respirar
e sonhar.
Tudo o mais
cá embaixo
era dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
e o mar
e o ar
tudo medido
dividido a régua e compasso
pelos outros e seus descendentes.
No mundo inteiro
não faltava ninguém
depois dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
era estrangeira
mais este pedaço onde nasci.
Não me deixaram nada
nada mais do que o sonhar.
Eu que sonhasse!
E eu que amo a vida mais do que o sonho
e o sonho e a vida juntos
mais do que ambos separados
e que não sei sonhar senão a vida
e que não sei viver senão o sonho
hei-de ficar aqui
entre os outros e seus descendentes?
Eram meus caminhos
os caminhos murados
só os caminhos eram meus.
Só tinham fim os caminhos
ao começar outros caminhos.
As portas fechadas
as janelas cerradas
só os caminhos eram meus.
A minha viagem não tinha fim
no fim de todos os caminhos.
O fim que tinha era outro
bem perto de mim
em todos os caminhos.
Bem perto de mim andava
aquele que eu buscava,
aquele que não era nenhum dos outros e seus descendentes,
alguém cuja pessoa era eu
que não me achava.
Apenas uma voz me falava e sabia
que eu não era nenhum dos outros e seus descendentes.
E esse que a voz sabia que eu o era
me levava pelos caminhos
os meus olhos primeiros do que eu
e o coração no peito a contar.
A voz sabia-o bem
e eu para me encontrar.
Também vi pelos caminhos
lembro-me de quantos
também como eu
à procura de tantos como eles.
Perdidos vão
perdidos? não!
não achados
não achados ainda.
Perdidos não estão
vão perdidos por se acharem,
vão mortos por se verem a si próprios
como são.
Levam o sonho no ar
e o coração a contar
as idades que é preciso ter
até cada um ser
aquele que vai em si.
Nascer é vir a este mundo
não é ainda chegar a ser.
Nascer é o feito dos outros.
O nosso é depois de nascer
até chegarmos a ser
aquele que o sonho nos faz.
Já sei de cor os caminhos
já sei o que vale a promessa
já vejo perfeito no sonho
o que me há-de a vida imitar.
Mais além
e o sonho e a vida
libertar-se-ão um do outro em mim!

Almada Negreiros

sexta-feira, julho 18, 2003

ainda e outra vez
quantas forem


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo


terça-feira, julho 15, 2003

Som de Negros em Cuba

Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de Cuba,
irei a Santiago.
num carro de água negra
Irei a Santiago.
Vão cantar os tectos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quiser ser cegonha.
irei a Santiago.
E quando quiser ser medusa a bananeira,
irei a Santiago.
Irei a Santiago
com a loura cabeça de Fonseca.
Irei a Santiago.
E com o cor-de-rosa de Romeu e Julieta
irei a Santiago.
Mar de papel e prata de moedas.
Irei a Santiago.
Ó Cuba! Ó ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Ó cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.
Irei a Santiago.
Eu sempre disse que iria a Santiago
num carro de água negra.
Irei a Santiago.
Brisa e álcool nas rodas,
Irei a Santiago.
O meu coral dentro da treva,
irei a Santiago.
O mar afogado na areia,
irei a Santiago.
Calor branco, fruta morta,
irei a Santiago.
Ó bovina frescura de carriços!
Ó Cuba! Ó curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.

Federico Garcia Lorca

"os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira"
Uma Peça Mais Tarde + O Jogo de Ialta de Brian Friel no TNSJ
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


From The Complete Poems 1927-1979 by Elizabeth Bishop,

segunda-feira, julho 14, 2003

Quando me da as boas-vindas

De braços bem abertos

Sinto-me como aqueles viajantes que regressam

Das longinquas terras de Punt.


Tudo se muda; o pensamento, os sentidos,

Em perfume rico e estranho.


E quando ela entreabre os labios para beijar

Fico com a cabeça leve, fico ébrio sem cerveja.


POEMAS DE AMOR DO ANTIGO EGIPTO
traduçao de Helder Moura Pereira

sexta-feira, junho 27, 2003

AH, PODER SER TU, SENDO EU!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo

quinta-feira, junho 26, 2003

Para caminhar sobre a agua é necessario antes de mais
ter os pés grandes. Suficientemente grandes para que
flutuem apesar da gravidade. Para caminhar sobre a
agua temos de descer aos proprios pés. Nao sei se me
faço entender. e dificil, por vezes, fazermo-nos entender
assim a caminhar sobre a agua.

Ha pessoas cujos pés mais parecem folhas de nenufar.
Vivem nos lagos. Afastadas do mundo. De Abril a
Setembro florescem. Escondem no seu seio as flores mais
surpreendentes. Cor-de-rosa de manha, um cor-de-rosa
que se vai tornando progressivamente azul para o fim
do dia.

Ha inumeros lugares onde se pode chegar caminhando
sobre a agua. O que mais me atrai é habitado por car-
dumes de peixes cegos. Nao faz muito tempo que parti.
Talvez (e na melhor da hipoteses) daqui a uns séculos
lhes dê noticias. Quando os dedos dos meus pés – do
halux ao dedo mindinho – de subito de iluminarem.

Jorge de Sousa Braga

sábado, junho 21, 2003

Vejo passar os barcos
sob a chuva

Sentado sobre a ausência

Nenhuma boca
pronuncia
o nome

De mãos vazias
vejo passar
os barcos

Egito Gonçalves

sexta-feira, junho 20, 2003

Antoniologias
Aviz - o weblog de Francisco José Viegas.

quarta-feira, junho 18, 2003

segunda-feira, junho 16, 2003


Príncipe

era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
contudo
quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
mas era de noite
e por isso tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
ah era de noite
e de súbito
tudo era apenas lábios pálpebras
intumescências cobrindo o corpo de flutuantes
volteios de palpitações trémulas adejando
pelo rosto beijava os teus olhos por dentro.
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão
sobre o meu pensamento corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te. são mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.


Ana Hatherly

domingo, junho 15, 2003

Had we but world enough and time
This coyness, Lady, were no crime.
We would sit down and think which way
To walk and pass our long love's day,
Thou by the Indian Ganges' side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the Flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, Lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time's winged chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found,
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long preserved virginity,
And your quaint honor turn to dust,
And into ashes all my lust:
The grave's a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

TO HIS COY MISTRESS
Andrew Marvell (1621–1678)

quando a noite toca os teus pulsos

quando a noite toca os teus pulsos
rebentam em ternura as açucenas
e o mais das flores se inclina
para o peito, o ventre, o calor
desta vida que brilha ao sul.
dá-me a tua mão, dizes,
quero ter contigo o relâmpago
que incendeia na terra os cereais
e no coração desperta as romãs.
procuro árvores, pé ante pé.
na sombra da tua palavra
busco o derradeiro acordar das estrelas
e demoro-me em silêncio
na interrogação dos planetas.
e quando a noite toca os teus pulsos
dá-se em mim uma vida maior
e das janelas apago os olhares
para ficar a sós contigo
no suspiro da terra que nos inventa

Vasco Gato
Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o
livro do não trabalho
e diz cor de rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor de rosa em segredo
a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta
porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que
tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho
a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore


Mario Cesariny

sábado, junho 14, 2003


Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
E a atenção começa a florir, quando sucede a noite
Esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
Se enchem de um brilho precioso
E estremeces como um pensamento chegado. Quando,
Iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
Pelo pressentir de um tempo distante,
E na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
Ao lado do espaço
E o coração é uma semente inventada
Em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
Tu arrebatas os caminhos da minha solidão
Como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
Os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
Correr do espaço -
E penso que vou dizer algo cheio de razão,
Mas quando a sombra cai da curva sôfrega
Dos meus lábios, sinto que me faltam
Um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres
Que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder

sexta-feira, junho 13, 2003

Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca, dentro dos meus braços
Os abraços hão-de ser, milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com este negócio de você
Viver sem mim. Não quero mais este negócio


Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes

quinta-feira, junho 12, 2003

eu posso tentar fazer as coisas todas que me apetecer
mas o que me apetece mesmo é ouvir-te dizer poemas

Soneto

Não será sempre assim... Quando não for;
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior

Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando, um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se for trocando:

Se tal acontecer; fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
"Goza a ventura de que já gozei:"

Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.

e. e. cummings

terça-feira, junho 10, 2003

pergunto se posso dizer o teu nome a uma flor
flor o teu nome sussurado pétala a pétala
letra a letra uma flor desfolhada na terra.


José Luis Peixoto
"A Criança Em Ruínas"
Edições Quasi

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
Poemas 1945-1965, 3ª ed. (1971)



domingo, junho 08, 2003

foi mesmo ela que me deu a quina de paus.

quarta-feira, junho 04, 2003

Devagar me inteiro das coisas.

Devagar ando.
Devagar acordo.
Sou eu devagar em frente à porta.
Devagar entro sem bater.

O que sobretudo tem faltado à minha vida até agora é a simplicidade. Começo a mudar a pouco e pouco.

Por exemplo, actualmente saio sempre de casa com a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.

Se tem as orelhas ou o nariz grandes e feios, tiro-lhos juntamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; so conservo o que me apetece.

Se a sua roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.

As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu fazia tudo como me apetecia.

Agora, tenho sempre belas tardes. (De manhã, trabalho.)




Henri Michaux

"A Simplicidade"

in Antologia

tradução de Margarida Vale de Gato

relógio d'água

segunda-feira, junho 02, 2003

Desde ontem que a noite começa a espreitar.
Dentro dos dias as imagens adormecem.
Os meus olhos não vêm.
Mas os meus lábios acordam-te todas as manhãs.
Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista.
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

RICARDO REIS

domingo, junho 01, 2003


Dia Primeiro

Lembras-te quando as romãs
se apertavam contra o peito?
Era maio. Era o sul.
Quem se lembra de nós? Quem nos respira?
Quem abre as cortinas e espreita,
a saber de nós?

Curaste o rio da rebelião. Curaste a seiva.
Vês como cresce em esplendor?
Desde maio que floresce.
Desde maio. Desde maio
que se desfaz em lágrimas.
Como é sentir o cordão a romper-se?
Como é sentir a terra tão longe, que dá vontade de cair
só para experimentar o delírio da queda,
a solidão do ar que se respira desfeito em partículas?

Não sei onde me fixar,
tenho o olhar perdido, o cabelo em desalinho,
as mãos agitadas à procura.
Que dizer agora que a solidão bate à porta?
Que te dizer, amor, senão que a vida se pode emendar,
que a vida se pode redimir
e retomar o sonho?
Que te dizer senão que o meu sangue se despede
e já nada resta a não ser um acordar?
Um acordar onde tu apedrejas aos anjos e me queimas os olhos no fogo.

Desintegra-te,
respira quando doer, dilacera-te.
Dilacera-te, meu amor.
E de repente acontece sentir.
Era maio. As giestas de maio:
que beleza, que sabor tão doce!
Se eu soubesse partilha-lo contigo
o mundo acabava aqui, no primeiro dia.

Ingrid Choren

terça-feira, maio 27, 2003

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a morte perde o rosto;
Palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)

palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.

Alexandre O’ Neill
o teu sorriso, amor, envergonha a primavera

segunda-feira, maio 26, 2003

"(...) de repente vi que estava triste, mortalmente triste, tão triste que me pareceu impossível viver amanhã, não porque morresse ou me matasse, mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada..."

fernando pessoa

quarta-feira, maio 21, 2003

WE WAVES

WE, we waves,
That are rocking the winds
To rest--
Green cradles, we waves!

Wet are we, and salty;
Leap like flames of fire--
Wet flames are we:
Burning, extinguishing;
Cleansing, replenishing;
Bearing, engendering.

We, we waves,
That are rocking the winds
To rest!

August Strindberg
THE ABSINTHE GUIDE

domingo, maio 18, 2003

Tristesse

J'ai perdu ma force et ma vie,
Et mes amis et ma gaîté;
J'ai perdu jusqu'à la fierté
Qui faisat croire à mon génie.

Quan j'ai connu la Vérité,
J'ai cru que c'était une amie;
quand je l'ai comprise et sentie,
J'en étais féjà dégoûté.

Et pourtant elle est éternelle,
Et ceux qui se sont passés d'elle
Ici-bas ont tout ignoré.

Dieu parle, il faut qu'on lui réponde.
Le seul bien qui me reste au monde
Est d'avoir quelquefois pleuré.

Alfred Musset

sábado, maio 17, 2003

Ruina Romana

Figura de Guizos (Timidamente.)
E se eu me transformasse em formiga?
Figura de Parras (Energico.)
Eu transformava-me em terra.
F.G. (Mais forte.)
E se eu me transformasse em terra?
F.P. (Mais debil.)
Eu transformava-me em agua.
F.G. (Vibrante.)
E se eu me transformasse em agua?
F.P. (Desfalecido.)
Eu transformava-me em peixe-lua.
F.G. (Tremente.)
E se eu me transformasse em peixe-lua?
F.P. (Levantando-se.)
Eu transformava-me em faca. Numa faca afiada durante quatro longas primaveras.

El Publico - Federico Garcia Lorca
eu não sei mas acho que fui eu que andei a mexer onde não devia. é mesmo meu. e agora?
Quem roubou os comentários?

sexta-feira, maio 16, 2003

OLA! Hoje estou muito contente porque vou 3 semanas para a Normandia. Desculpa, Sofia, teve que ser.

quinta-feira, maio 15, 2003



Amanhã não sei se será. Não sei se amanhã será, sei lá!? Eu era incapaz de tal barbaridade. E era vermelho, da cor do amor em crepúsculo forçado. Da cor do mar em cânticos entoados na areia dos recifes ancestrais. Longas extensões de amarelo alaranjado, por linhas do horizonte para lá das convencionais linhas do horizonte. Linhas desancoradas do habitual cais de embarque, do enigma do seu limite. E a tua cama equidistante. E a bruma que não cansa de cair. Não. Nove palavras bastam para definir as linhas de uma relação. Nove pedras entaladas num rio seco, em constantes quedas de nada. Um rio seco com flora e fauna viva, ansiando por chuva quente, não-ácida. Por chuva quente, não-ácida. De manhã, cantam as pedras num ritual tribal, numa cerimónia estranha de entes desconhecidos à vista de quem passa. Odes esboçadas por oregas solitárias, nove no fundo do leito cascalhado, encalhado por céus laranja-limão. Sussurros estrondosos. Nove horas de gritos aos céus, nove longas esperas de um fruto que teima não cair. Um rio irado consigo próprio, engasgado nas pedras que ele próprio transportou, que ele próprio resguardou, que protegeu e esculpiu ao longo de nove longas eras de vida e cor e fantasia. Já sei! Amanhã serás tu. A esculpir-me o corpo com bruma da manhã, a proteger-me das pedras que desesperam tentar fugir do rio que outrora lhes deu guarida. Amanhã serás tu a percorrer-me com água fresca, a desenhar-me com vermelhos de crepúsculos ordinários e ordinários. Amanhã serão nove, as horas de partilha.


João Lena
Para a VÂNIA depois do descanso: EM SINTRA ui

As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.


Luís Miguel Nava
Películas (1979)
in Poesia Completa 1979-1994
Lisboa, Dom Quixote, 2002


Para a VÂNIA, que tudo abraça...

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


Fernando Pessoa, 2-8-1933
TEATRO NACIONAL D. Maria II
Parasitas
De Marius Von Mayenburg, tradução de João Barrento, encenação de Nuno Cardoso, interpretação de António Fonseca, Catarina Requeijo, Cátia Pinheiro, Nuno M. Cardoso, Tónan Quito. Pelo Ao Cabo Teatro.
3ª a Sáb., 21h45; Dom., Às 16h30
22 de Maio a 15 de Junho

quarta-feira, maio 14, 2003



BEING your slave, what should I do but tend
Upon the hours and times of your desire?
I have no precious time at all to spend
Nor services to do, till you require:

Nor dare I chide the world-without-end-hour
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour
When you have bid your servant once adieu:
Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are, how happy you make those

So true a fool is Love, that in your will
Though you do anything, he thinks no ill.

Shakespeare

sexta-feira, maio 09, 2003

Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Natália Correia

domingo, maio 04, 2003

E as crianças que nos dão a mão.

sábado, maio 03, 2003

Olá a todos. Não acham assustador sermos todos tão terrivelmente parecidos nas pequenas coisas?
para a MARTA, que se passeia na tarde como as giestas se passeiam em maio:

it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be--
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands

e e cummings

sexta-feira, maio 02, 2003

Sindicato de Poesia em Coro no Planetário - Porto
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

Luís, tens de me ensinar a por fotos.

quarta-feira, abril 30, 2003

Tenho saudades...
Olá sofia linda!
Também eu estou à espera do mês de Maio e de que com ele o Sol perca a vergonha.
Coisa que não é fácil com o que escorre por este planeta.

QUINTO / NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer

Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogofátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!

Pessoa, Mensagem

Sei que o amor é um trabalho obscuro; temos que sujar as mãos. Se nos retraímos, nada de interessante acontece. Ao mesmo tempo, temos que encontrar a distância correcta entre as pessoas. Demasiado perto, e elas soterram-nos; demasiado longe e abandonam-nos. Como é que as conseguiremos manter na relação correcta?

Hanif Kureishi em “Intimacy”

terça-feira, abril 29, 2003

E tudo era possível...

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer



Ruy Belo, Homem de Palavra[s]
Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)
hoje estou com a eugénia. o que quer dizer que estamos as duas contra os ninguéns do frei luís de sousa, versão alargada e corrompida.
ai maio maio
 
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