terça-feira, julho 22, 2003

mesmo sem acentos

O meu coracao assumiu todas as formas:
a de uma pastagem para gazelas e a de um convento para monges cristaos,
um templo para idolos e uma caaba para peregrinos,
as tabuas de uma tora e as paginas de um alcorao.
Sigo a religiao do amor;
para onde quer que sigam os camelos do amor,
o amor e a minha religiao e a minha fe.

Ibn Arabi
Everything is far
and long gone by.
I think that the star
glittering above me
has been dead for a million years.
I think there were tears
in the car I heard pass
and something terrible was said.
A clock has stopped striking in the house
across the road...
When did it start?...
I would like to step out of my heart
an go walking beneath the enormous sky.
I would like to pray.
And surely of all the stars that perished
long ago,
one still exists.
I think that I know
which one it is--
which one, at the end of its beam in the sky,
stands like a white city...

Rainer Maria Rilke

domingo, julho 20, 2003

A Varanda de Julieta

Uma vez entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.

Nuno Júdice


sábado, julho 19, 2003

As Quatro Manhãs

Primeira Manhã


Quando cheguei devia ser tarde,
já tinham dividido tudo
pelos outros e seus descendentes.
Só havia o céu por cima dos telhados
lá muito alto
para eu respirar
e sonhar.
Tudo o mais
cá embaixo
era dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
e o mar
e o ar
tudo medido
dividido a régua e compasso
pelos outros e seus descendentes.
No mundo inteiro
não faltava ninguém
depois dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
era estrangeira
mais este pedaço onde nasci.
Não me deixaram nada
nada mais do que o sonhar.
Eu que sonhasse!
E eu que amo a vida mais do que o sonho
e o sonho e a vida juntos
mais do que ambos separados
e que não sei sonhar senão a vida
e que não sei viver senão o sonho
hei-de ficar aqui
entre os outros e seus descendentes?
Eram meus caminhos
os caminhos murados
só os caminhos eram meus.
Só tinham fim os caminhos
ao começar outros caminhos.
As portas fechadas
as janelas cerradas
só os caminhos eram meus.
A minha viagem não tinha fim
no fim de todos os caminhos.
O fim que tinha era outro
bem perto de mim
em todos os caminhos.
Bem perto de mim andava
aquele que eu buscava,
aquele que não era nenhum dos outros e seus descendentes,
alguém cuja pessoa era eu
que não me achava.
Apenas uma voz me falava e sabia
que eu não era nenhum dos outros e seus descendentes.
E esse que a voz sabia que eu o era
me levava pelos caminhos
os meus olhos primeiros do que eu
e o coração no peito a contar.
A voz sabia-o bem
e eu para me encontrar.
Também vi pelos caminhos
lembro-me de quantos
também como eu
à procura de tantos como eles.
Perdidos vão
perdidos? não!
não achados
não achados ainda.
Perdidos não estão
vão perdidos por se acharem,
vão mortos por se verem a si próprios
como são.
Levam o sonho no ar
e o coração a contar
as idades que é preciso ter
até cada um ser
aquele que vai em si.
Nascer é vir a este mundo
não é ainda chegar a ser.
Nascer é o feito dos outros.
O nosso é depois de nascer
até chegarmos a ser
aquele que o sonho nos faz.
Já sei de cor os caminhos
já sei o que vale a promessa
já vejo perfeito no sonho
o que me há-de a vida imitar.
Mais além
e o sonho e a vida
libertar-se-ão um do outro em mim!

Almada Negreiros

sexta-feira, julho 18, 2003

ainda e outra vez
quantas forem


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo


terça-feira, julho 15, 2003

Som de Negros em Cuba

Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de Cuba,
irei a Santiago.
num carro de água negra
Irei a Santiago.
Vão cantar os tectos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quiser ser cegonha.
irei a Santiago.
E quando quiser ser medusa a bananeira,
irei a Santiago.
Irei a Santiago
com a loura cabeça de Fonseca.
Irei a Santiago.
E com o cor-de-rosa de Romeu e Julieta
irei a Santiago.
Mar de papel e prata de moedas.
Irei a Santiago.
Ó Cuba! Ó ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Ó cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.
Irei a Santiago.
Eu sempre disse que iria a Santiago
num carro de água negra.
Irei a Santiago.
Brisa e álcool nas rodas,
Irei a Santiago.
O meu coral dentro da treva,
irei a Santiago.
O mar afogado na areia,
irei a Santiago.
Calor branco, fruta morta,
irei a Santiago.
Ó bovina frescura de carriços!
Ó Cuba! Ó curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.

Federico Garcia Lorca

"os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira"
Uma Peça Mais Tarde + O Jogo de Ialta de Brian Friel no TNSJ
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


From The Complete Poems 1927-1979 by Elizabeth Bishop,

segunda-feira, julho 14, 2003

Quando me da as boas-vindas

De braços bem abertos

Sinto-me como aqueles viajantes que regressam

Das longinquas terras de Punt.


Tudo se muda; o pensamento, os sentidos,

Em perfume rico e estranho.


E quando ela entreabre os labios para beijar

Fico com a cabeça leve, fico ébrio sem cerveja.


POEMAS DE AMOR DO ANTIGO EGIPTO
traduçao de Helder Moura Pereira

sexta-feira, junho 27, 2003

AH, PODER SER TU, SENDO EU!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo

quinta-feira, junho 26, 2003

Para caminhar sobre a agua é necessario antes de mais
ter os pés grandes. Suficientemente grandes para que
flutuem apesar da gravidade. Para caminhar sobre a
agua temos de descer aos proprios pés. Nao sei se me
faço entender. e dificil, por vezes, fazermo-nos entender
assim a caminhar sobre a agua.

Ha pessoas cujos pés mais parecem folhas de nenufar.
Vivem nos lagos. Afastadas do mundo. De Abril a
Setembro florescem. Escondem no seu seio as flores mais
surpreendentes. Cor-de-rosa de manha, um cor-de-rosa
que se vai tornando progressivamente azul para o fim
do dia.

Ha inumeros lugares onde se pode chegar caminhando
sobre a agua. O que mais me atrai é habitado por car-
dumes de peixes cegos. Nao faz muito tempo que parti.
Talvez (e na melhor da hipoteses) daqui a uns séculos
lhes dê noticias. Quando os dedos dos meus pés – do
halux ao dedo mindinho – de subito de iluminarem.

Jorge de Sousa Braga

sábado, junho 21, 2003

Vejo passar os barcos
sob a chuva

Sentado sobre a ausência

Nenhuma boca
pronuncia
o nome

De mãos vazias
vejo passar
os barcos

Egito Gonçalves

sexta-feira, junho 20, 2003

Antoniologias
Aviz - o weblog de Francisco José Viegas.

quarta-feira, junho 18, 2003

segunda-feira, junho 16, 2003


Príncipe

era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
contudo
quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
mas era de noite
e por isso tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
ah era de noite
e de súbito
tudo era apenas lábios pálpebras
intumescências cobrindo o corpo de flutuantes
volteios de palpitações trémulas adejando
pelo rosto beijava os teus olhos por dentro.
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão
sobre o meu pensamento corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te. são mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.


Ana Hatherly

domingo, junho 15, 2003

Had we but world enough and time
This coyness, Lady, were no crime.
We would sit down and think which way
To walk and pass our long love's day,
Thou by the Indian Ganges' side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the Flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, Lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time's winged chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found,
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long preserved virginity,
And your quaint honor turn to dust,
And into ashes all my lust:
The grave's a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

TO HIS COY MISTRESS
Andrew Marvell (1621–1678)

quando a noite toca os teus pulsos

quando a noite toca os teus pulsos
rebentam em ternura as açucenas
e o mais das flores se inclina
para o peito, o ventre, o calor
desta vida que brilha ao sul.
dá-me a tua mão, dizes,
quero ter contigo o relâmpago
que incendeia na terra os cereais
e no coração desperta as romãs.
procuro árvores, pé ante pé.
na sombra da tua palavra
busco o derradeiro acordar das estrelas
e demoro-me em silêncio
na interrogação dos planetas.
e quando a noite toca os teus pulsos
dá-se em mim uma vida maior
e das janelas apago os olhares
para ficar a sós contigo
no suspiro da terra que nos inventa

Vasco Gato
Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o
livro do não trabalho
e diz cor de rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor de rosa em segredo
a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta
porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que
tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho
a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore


Mario Cesariny
 
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