sábado, junho 14, 2003
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
E a atenção começa a florir, quando sucede a noite
Esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
Se enchem de um brilho precioso
E estremeces como um pensamento chegado. Quando,
Iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
Pelo pressentir de um tempo distante,
E na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
Ao lado do espaço
E o coração é uma semente inventada
Em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
Tu arrebatas os caminhos da minha solidão
Como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
Os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
Correr do espaço -
E penso que vou dizer algo cheio de razão,
Mas quando a sombra cai da curva sôfrega
Dos meus lábios, sinto que me faltam
Um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
Que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
Herberto Helder
sexta-feira, junho 13, 2003
Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca, dentro dos meus braços
Os abraços hão-de ser, milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com este negócio de você
Viver sem mim. Não quero mais este negócio
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca, dentro dos meus braços
Os abraços hão-de ser, milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com este negócio de você
Viver sem mim. Não quero mais este negócio
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes
quinta-feira, junho 12, 2003
eu posso tentar fazer as coisas todas que me apetecer
mas o que me apetece mesmo é ouvir-te dizer poemas
Soneto
Não será sempre assim... Quando não for;
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior
Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando, um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se for trocando:
Se tal acontecer; fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
"Goza a ventura de que já gozei:"
Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.
e. e. cummings
mas o que me apetece mesmo é ouvir-te dizer poemas
Soneto
Não será sempre assim... Quando não for;
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior
Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando, um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se for trocando:
Se tal acontecer; fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
"Goza a ventura de que já gozei:"
Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.
e. e. cummings
terça-feira, junho 10, 2003
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
Poemas 1945-1965, 3ª ed. (1971)
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
Poemas 1945-1965, 3ª ed. (1971)
quarta-feira, junho 04, 2003
O que sobretudo tem faltado à minha vida até agora é a simplicidade. Começo a mudar a pouco e pouco.
Por exemplo, actualmente saio sempre de casa com a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.
Se tem as orelhas ou o nariz grandes e feios, tiro-lhos juntamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; so conservo o que me apetece.
Se a sua roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.
As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu fazia tudo como me apetecia.
Agora, tenho sempre belas tardes. (De manhã, trabalho.)
Henri Michaux
"A Simplicidade"
in Antologia
tradução de Margarida Vale de Gato
relógio d'água
Por exemplo, actualmente saio sempre de casa com a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.
Se tem as orelhas ou o nariz grandes e feios, tiro-lhos juntamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; so conservo o que me apetece.
Se a sua roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.
As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu fazia tudo como me apetecia.
Agora, tenho sempre belas tardes. (De manhã, trabalho.)
Henri Michaux
"A Simplicidade"
in Antologia
tradução de Margarida Vale de Gato
relógio d'água
segunda-feira, junho 02, 2003
domingo, junho 01, 2003
Dia Primeiro
Lembras-te quando as romãs
se apertavam contra o peito?
Era maio. Era o sul.
Quem se lembra de nós? Quem nos respira?
Quem abre as cortinas e espreita,
a saber de nós?
Curaste o rio da rebelião. Curaste a seiva.
Vês como cresce em esplendor?
Desde maio que floresce.
Desde maio. Desde maio
que se desfaz em lágrimas.
Como é sentir o cordão a romper-se?
Como é sentir a terra tão longe, que dá vontade de cair
só para experimentar o delírio da queda,
a solidão do ar que se respira desfeito em partículas?
Não sei onde me fixar,
tenho o olhar perdido, o cabelo em desalinho,
as mãos agitadas à procura.
Que dizer agora que a solidão bate à porta?
Que te dizer, amor, senão que a vida se pode emendar,
que a vida se pode redimir
e retomar o sonho?
Que te dizer senão que o meu sangue se despede
e já nada resta a não ser um acordar?
Um acordar onde tu apedrejas aos anjos e me queimas os olhos no fogo.
Desintegra-te,
respira quando doer, dilacera-te.
Dilacera-te, meu amor.
E de repente acontece sentir.
Era maio. As giestas de maio:
que beleza, que sabor tão doce!
Se eu soubesse partilha-lo contigo
o mundo acabava aqui, no primeiro dia.
Ingrid Choren
terça-feira, maio 27, 2003
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a morte perde o rosto;
Palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)
palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.
Alexandre O’ Neill
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a morte perde o rosto;
Palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)
palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.
Alexandre O’ Neill
segunda-feira, maio 26, 2003
quarta-feira, maio 21, 2003
domingo, maio 18, 2003
Tristesse
J'ai perdu ma force et ma vie,
Et mes amis et ma gaîté;
J'ai perdu jusqu'à la fierté
Qui faisat croire à mon génie.
Quan j'ai connu la Vérité,
J'ai cru que c'était une amie;
quand je l'ai comprise et sentie,
J'en étais féjà dégoûté.
Et pourtant elle est éternelle,
Et ceux qui se sont passés d'elle
Ici-bas ont tout ignoré.
Dieu parle, il faut qu'on lui réponde.
Le seul bien qui me reste au monde
Est d'avoir quelquefois pleuré.
Alfred Musset
J'ai perdu ma force et ma vie,
Et mes amis et ma gaîté;
J'ai perdu jusqu'à la fierté
Qui faisat croire à mon génie.
Quan j'ai connu la Vérité,
J'ai cru que c'était une amie;
quand je l'ai comprise et sentie,
J'en étais féjà dégoûté.
Et pourtant elle est éternelle,
Et ceux qui se sont passés d'elle
Ici-bas ont tout ignoré.
Dieu parle, il faut qu'on lui réponde.
Le seul bien qui me reste au monde
Est d'avoir quelquefois pleuré.
Alfred Musset
sábado, maio 17, 2003
Ruina Romana
Figura de Guizos (Timidamente.)
E se eu me transformasse em formiga?
Figura de Parras (Energico.)
Eu transformava-me em terra.
F.G. (Mais forte.)
E se eu me transformasse em terra?
F.P. (Mais debil.)
Eu transformava-me em agua.
F.G. (Vibrante.)
E se eu me transformasse em agua?
F.P. (Desfalecido.)
Eu transformava-me em peixe-lua.
F.G. (Tremente.)
E se eu me transformasse em peixe-lua?
F.P. (Levantando-se.)
Eu transformava-me em faca. Numa faca afiada durante quatro longas primaveras.
El Publico - Federico Garcia Lorca
Figura de Guizos (Timidamente.)
E se eu me transformasse em formiga?
Figura de Parras (Energico.)
Eu transformava-me em terra.
F.G. (Mais forte.)
E se eu me transformasse em terra?
F.P. (Mais debil.)
Eu transformava-me em agua.
F.G. (Vibrante.)
E se eu me transformasse em agua?
F.P. (Desfalecido.)
Eu transformava-me em peixe-lua.
F.G. (Tremente.)
E se eu me transformasse em peixe-lua?
F.P. (Levantando-se.)
Eu transformava-me em faca. Numa faca afiada durante quatro longas primaveras.
El Publico - Federico Garcia Lorca
