Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a morte perde o rosto;
Palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)
palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.
Alexandre O’ Neill
segunda-feira, maio 26, 2003
quarta-feira, maio 21, 2003
domingo, maio 18, 2003
Tristesse
J'ai perdu ma force et ma vie,
Et mes amis et ma gaîté;
J'ai perdu jusqu'à la fierté
Qui faisat croire à mon génie.
Quan j'ai connu la Vérité,
J'ai cru que c'était une amie;
quand je l'ai comprise et sentie,
J'en étais féjà dégoûté.
Et pourtant elle est éternelle,
Et ceux qui se sont passés d'elle
Ici-bas ont tout ignoré.
Dieu parle, il faut qu'on lui réponde.
Le seul bien qui me reste au monde
Est d'avoir quelquefois pleuré.
Alfred Musset
J'ai perdu ma force et ma vie,
Et mes amis et ma gaîté;
J'ai perdu jusqu'à la fierté
Qui faisat croire à mon génie.
Quan j'ai connu la Vérité,
J'ai cru que c'était une amie;
quand je l'ai comprise et sentie,
J'en étais féjà dégoûté.
Et pourtant elle est éternelle,
Et ceux qui se sont passés d'elle
Ici-bas ont tout ignoré.
Dieu parle, il faut qu'on lui réponde.
Le seul bien qui me reste au monde
Est d'avoir quelquefois pleuré.
Alfred Musset
sábado, maio 17, 2003
Ruina Romana
Figura de Guizos (Timidamente.)
E se eu me transformasse em formiga?
Figura de Parras (Energico.)
Eu transformava-me em terra.
F.G. (Mais forte.)
E se eu me transformasse em terra?
F.P. (Mais debil.)
Eu transformava-me em agua.
F.G. (Vibrante.)
E se eu me transformasse em agua?
F.P. (Desfalecido.)
Eu transformava-me em peixe-lua.
F.G. (Tremente.)
E se eu me transformasse em peixe-lua?
F.P. (Levantando-se.)
Eu transformava-me em faca. Numa faca afiada durante quatro longas primaveras.
El Publico - Federico Garcia Lorca
Figura de Guizos (Timidamente.)
E se eu me transformasse em formiga?
Figura de Parras (Energico.)
Eu transformava-me em terra.
F.G. (Mais forte.)
E se eu me transformasse em terra?
F.P. (Mais debil.)
Eu transformava-me em agua.
F.G. (Vibrante.)
E se eu me transformasse em agua?
F.P. (Desfalecido.)
Eu transformava-me em peixe-lua.
F.G. (Tremente.)
E se eu me transformasse em peixe-lua?
F.P. (Levantando-se.)
Eu transformava-me em faca. Numa faca afiada durante quatro longas primaveras.
El Publico - Federico Garcia Lorca
sexta-feira, maio 16, 2003
quinta-feira, maio 15, 2003
Amanhã não sei se será. Não sei se amanhã será, sei lá!? Eu era incapaz de tal barbaridade. E era vermelho, da cor do amor em crepúsculo forçado. Da cor do mar em cânticos entoados na areia dos recifes ancestrais. Longas extensões de amarelo alaranjado, por linhas do horizonte para lá das convencionais linhas do horizonte. Linhas desancoradas do habitual cais de embarque, do enigma do seu limite. E a tua cama equidistante. E a bruma que não cansa de cair. Não. Nove palavras bastam para definir as linhas de uma relação. Nove pedras entaladas num rio seco, em constantes quedas de nada. Um rio seco com flora e fauna viva, ansiando por chuva quente, não-ácida. Por chuva quente, não-ácida. De manhã, cantam as pedras num ritual tribal, numa cerimónia estranha de entes desconhecidos à vista de quem passa. Odes esboçadas por oregas solitárias, nove no fundo do leito cascalhado, encalhado por céus laranja-limão. Sussurros estrondosos. Nove horas de gritos aos céus, nove longas esperas de um fruto que teima não cair. Um rio irado consigo próprio, engasgado nas pedras que ele próprio transportou, que ele próprio resguardou, que protegeu e esculpiu ao longo de nove longas eras de vida e cor e fantasia. Já sei! Amanhã serás tu. A esculpir-me o corpo com bruma da manhã, a proteger-me das pedras que desesperam tentar fugir do rio que outrora lhes deu guarida. Amanhã serás tu a percorrer-me com água fresca, a desenhar-me com vermelhos de crepúsculos ordinários e ordinários. Amanhã serão nove, as horas de partilha.
João Lena
Para a VÂNIA depois do descanso: EM SINTRA ui
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
Luís Miguel Nava
Películas (1979)
in Poesia Completa 1979-1994
Lisboa, Dom Quixote, 2002
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
Luís Miguel Nava
Películas (1979)
in Poesia Completa 1979-1994
Lisboa, Dom Quixote, 2002
Para a VÂNIA, que tudo abraça...
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa, 2-8-1933
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa, 2-8-1933
TEATRO NACIONAL D. Maria II
Parasitas
De Marius Von Mayenburg, tradução de João Barrento, encenação de Nuno Cardoso, interpretação de António Fonseca, Catarina Requeijo, Cátia Pinheiro, Nuno M. Cardoso, Tónan Quito. Pelo Ao Cabo Teatro.
3ª a Sáb., 21h45; Dom., Às 16h30
22 de Maio a 15 de Junho
Parasitas
De Marius Von Mayenburg, tradução de João Barrento, encenação de Nuno Cardoso, interpretação de António Fonseca, Catarina Requeijo, Cátia Pinheiro, Nuno M. Cardoso, Tónan Quito. Pelo Ao Cabo Teatro.
3ª a Sáb., 21h45; Dom., Às 16h30
22 de Maio a 15 de Junho
quarta-feira, maio 14, 2003
BEING your slave, what should I do but tend
Upon the hours and times of your desire?
I have no precious time at all to spend
Nor services to do, till you require:
Nor dare I chide the world-without-end-hour
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour
When you have bid your servant once adieu:
Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are, how happy you make those
So true a fool is Love, that in your will
Though you do anything, he thinks no ill.
Shakespeare
sexta-feira, maio 09, 2003
Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
Natália Correia
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
Natália Correia
domingo, maio 04, 2003
sábado, maio 03, 2003
para a MARTA, que se passeia na tarde como as giestas se passeiam em maio:
it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;
if this should be, i say if this should be--
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands
e e cummings
it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;
if this should be, i say if this should be--
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands
e e cummings
